O homem de uma única árvore

Sapatos frescos, corpo bruto, pescoço flácido, sobrancelha desordenada e uma caminhada à praça. Cidade túrbida, casas desiguais e horizontes contornados de fumaças vindas das fábricas.  Poetizava sobre o caos da vida; sendo ele, um verso caótico vivo; sempre viveu no mesmo bairro, nos mesmos quadros. Para ele, família significava sofrimento sanguíneo; com seu olhar profundo e suas mãos frágeis rabiscava o mundo. Amou raquíticas vezes, apesar disso, compreendeu que o amor é o sorriso da alma.

O constante povoamento realizado na cidade, resultou em um aumento significativo de imponentes casas ricas e distintas residências miseráveis; em declínio, via-se áreas envoltas de indigências, poluições e canções advindas da fome. Percebia durante suas andanças, diferentes mazelas abraçando os corpos de homens, mulheres e crianças nascidas amarradas ao determinismo social. Caminhando em um terreno lúgubre, observou que uma árvore continuava de pé, enquanto centenas estavam caídas. Próximo ao local, um gigantesco outdoor anunciava a construção de um condomínio, pertencente a Geir Assis, ex-corretor carioca.

De repente, assustou-se, não sentia os movimentos adequadamente; em uma posição desconfortável, admirava à resiliência da árvore. Misteriosamente, foi despertado uma indecifrável tocha de sentimentos, queimando vigorosamente o seu ignorante raciocínio. O chão abriu-se, quase metade do seu corpo penetrava a terra uliginosa e domada de vermes gélidos. A sua frente, os traços da árvore, criavam uma sensação de medo e angústia, que inquietava seu drástico olhar.

Tronco rígido, cascas feridas, raízes profundas e o mistério esculpido sobre um cenário desprezível. Voavam folhas anêmicas diante da paisagem obscura. Prostrado, como nada, afundava sobre a lama; sentia-se fraco, sendo puxado, intensamente, para baixo. Ardia internamente, pois concentrou todas suas forças para levantar-se daquela posição humilhante, rasgando-se completamente.

O desenho de uma sepultura preenchia o desguarnecido lugar; e sem luz, suas lágrimas eram estrelas, e seu espírito o universo; inerte, enxergava a incapacidade de lutar contra a força que o hauria; e quando aceitou aquela potência desconhecida, o buraco não exercia mais estímulo sobre seu corpo; a partir de uma perspectiva longínqua, os resolutos contrastes da árvore, conseguiam chegar indecifravelmente aos sentidos do homem quase enterrado.

Recordou-se dos girassóis da infância, dos canários enfeitando sua inocência e os olhares carinhosos de sua mãe; lembrou-se da mesa decorada de bolos doces e sorrisos maviosos; tristemente, destruídos pelos desígnios da vida. Eles, cada um, trilharam os próprios caminhos; a casa esvaziou-se, a mesa fez-se surda; os sorrisos o deixaram, o violão ficou mudo e as vozes roucas; construiu uma jornada solitária, desenvolvendo um homem imbatível, que chora às madrugadas; e o palco da memória se tornou escuro, com uma única fresta de luz, debochando dos tempos coloridos.

Lágrimas desprovidas de sonhos caíam acompanhadas de folhas trágicas. Neste momento, os dois presenciaram uma revoada de pássaros, alçando voo à liberdade. A árvore, todavia, não vivia de vontades; havia sobre ela, uma nulidade de obsessões; até mesmo folhas mortas, desenhadas de vermes, possuíam uma natureza intocável. O chão estremecia, como testemunha de um cenário de batalha; surrou o chão, deixou descer uma última lágrima e levantou seus ombros, para desvendar o mistério que o envolvia. Estava de frente para a árvore, escutando uma voz cada vez mais forte aproximando-se.

Eu sei dos seus sonhos, do desalento que há em sua alma, do caos que compõem seus olhos rachados. Esculpiu um homem covarde, pensando que o sofrimento é uma brisa da tarde. O sofrimento é uma música, uma aterrorizante tempestade, que não descansa enquanto não destruir a sua casa .

— Com franqueza, nem nos irrisórios sonhos estou livre de opiniões alheias. Agora, há uma árvore conselheira na cidade. Poderia dizer, qual bebida alcoólica me fez alucinar com você?

— Pense em mim, como uma consciência; não um produto de meios que o fazem fugir da realidade. Se escuta-me, porque é preciso; classificou de mais a vida. Aqueles que rotulam a si, sempre serão embalagens com validade. E não há nada, nem ninguém, que tenha valor. O valor é medido, nós não. O universo não tem fim, está sempre crescendo, explodindo e retornando. A vida é sempre um eterno retorno, um bela confusão sem fim.

— Basta! Não acredito em sua misticidade, criatura. Na verdade, creio até que delírios nos ajudam a suportar a vida. Como deves saber, jamais encontrei a felicidade. Não há sentidos na existência, apesar de que todos finjam alguns. Nascem todos os dias pessoas fardadas ao sofrimento, destinadas ao consumismo e ao ego industrial. A vida em si, é macabra.

— O sofrimento é uma amargura desenhando os frutos da felicidade. As pessoas sofrem, no entanto um dia saberão que a dor também esculpe o amor. O sentido da vida não é a resposta, o sentido da vida será sempre uma pergunta

Belos conselhos produzem ótimas noites de sono, apenas. E você aprendeu muito estando enterrada, não é — perguntou ironicamente.

—  Todos encontram-se enterrados, como eu. Estou na terra, porém,  jamais presa sobre ela. Eu a contorno, ela me constitui. E imóvel, neste cenário, estou além de todos os horizontes. As nossas percepções às vezes nos cegam diante da realidade. Viver é sentir o ilusório e o transformar em experiência. A realidade é um mito, nada além de projeções interpretadas por olhos bêbados.

— Eu contento-me com a minha ilusão. Obrigado, não quero mais uma.

— Aves voam buscando alimento e proteção à medida que homens batem asas à ilusão. Há com toda certeza, inúmeras ilusões, mas quem segue o coração nunca estará perdido na presença delas.

Desta vez, um enorme gritou veio dele:

— APENAS EU CONHEÇO O CAMINHO QUE ESTIVE, OS TRAUMAS QUE EU RECEBI, AS LÁGRIMAS QUE EU SUPRIMI! O mundo, obviamente, não deveria existir. Eu o nego, mas compreendo que sou um simples homem em uma multidão adormecida. Às vezes eu acordo deste pesadelo, contudo, prefiro dormir a encarar a vida.

— A natureza é uma equação contínua, não um resultado administrado pela razão humana. O pensamento é uma direção, não o caminho. O ego é uma construção, jamais um espírito. A esperança é uma luz, não uma lanterna. A vida não é cair, não é levantar, apenas é se equilibrar. Os covardes que não encaram a vida, como poderão saber o que estão enfrentando.

— A vida inteira, optei em negar o mundo; na verdade, não entendo-o; ele sempre muda, nunca é o mesmo; cansei de vê-lo belo, e depois medonho. Mas… estou perdido; nunca fui o protagonista da minha história, nem ao menos a conheço; deixei a sociedade iluminar o meu caminho; e agora, sinto-me presa a ela; ela disse onde eu devia me sentar, com quais vozes deveria me apresentar; e meu espírito grita pela liberdade de esculpir a vida, de pintar-me de todas as cores, de ouvir todos os sons.

— Não negue o mundo; tampouco o ego; transforme-os. A vida é uma pintura, todos querem algum lugar perto da tela. Os indivíduos ainda não entendem a ilusão da vida. As pessoas estão desconectadas de si; aceitam suas construções de sujeito, limitam-se a elas. Compreendo que a dor machuca ferozmente, nem os poetas descrevem ela com facilidade.  A vida é um verso solto, sem rumo, sem partida, sem chegada.

Todas aquelas palavras acertaram o homem, rompendo drasticamente com sua mente. Realmente, havia ele criado o diálogo? Ele não era mais o mesmo, não se identificava com quem achava que sempre foi, não enxergava o mundo da mesma forma. O passado não o prendia, o futuro não o amedrontava. Estava livre; e mesmo estando preso ao mundo, também estava contornando-o

A árvore calou-se; nem um som proferia seus troncos firmes; o homem, livremente tocou o barro, desta vez sentindo-o alegremente.  Há sonhos absurdos, que acordamos quando percebemos a ilusão. E quando o diálogo terminou, soube que a árvore sempre foi ele. Existem diferentes árvores: umas vivem em ambientes secos, outras próximas a mangues; algumas têm frutos deliciosos e outras venosos; contudo, até árvores mortíferas, possuem uma beleza única. A árvore estava presa em sua mente, e quando a libertou, deixou-a livre para criar raízes magníficas. E agora, não era a vida que o carregava, ambos eram a mesma coisa.

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