O dilema e a amizade

Há sempre em nossos caminhos a chegada dos tempos sombrios. Um momento de nós olharmos nossas escolhas. Não me refiro ao misticismo da vida, mas aos acasos de uma sociedade complexa que nos impõem modelos e normas. O texto de hoje, refletirá (não necessariamente a sincronia da minha realidade) as relações de amizade.

A circunstâncias atuais fazem eu pensar radicalmente se chegou o momento de eu silenciar bruscamente todos os meus sentimentos. Pois estou cansado de ser esmagado por eles. E me sentir sozinho, mesmo cercado de pessoas.

Essa caminhada de traições e de desgostos programadas nos acasos da existência, fazem-me sofrer. Eu reconheço que o sofrimento nos molda, contudo estou machucado para considerar quaisquer sinais positivos nessa hora. Não se trata de que as pessoas brincam com os meus sentimentos, porém elas não entendem-me, nem eu a eles; logo cria-se um grande dilema: O dilema da partida

— Um amigo, a pessoa que você confiou seus segredos, tuas revoltas, começa a se afastar de você. Os olhares são esmorecidos, a conversa cansativa. Então, o coração e a mente entram em conflito: o por quê? E o amigo que aliava suas aflições, agora deixou-lhe dúvidas e culpa. E os efeitos do tempo separam-lhe. E quando vem às margens da memória o tempo da companhia, euforicamente envia uma mensagem e tem como resposta a constatação que realmente acabou-se. Ainda mais angustiante, quando aquela pessoa para você era uma chance de você voltar a confiar nos bons sentimentos das pessoas. E és lançado à cavidade da solidão, onde as raízes são dilaceradas.

A vida faz-se de pessoas e entramos em contado com uma pluralidade de pensamentos e histórias. Existem aquelas que desejamos levá-las com a gente. E onde pô-las? São guardadas em nossas almas, no nosso coração, na adjacência da nossa personalidade. O cotidiano instala-se, os acasos alimentam conflitos e animosidades e às vezes somos surpreendidos com a sensação de desconhecer a pessoa que está ao nosso lado. Talvez seja a hora de deixá-los, mas agora, que os guardei em meu coração.

A solidão não é uma vilã, tampouco uma residência aos terríveis. A solidão nada mais é que aceitar a condição da existência; somos desconhecidos para nós mesmos, mas sabemos os caminhos que trilhamos e as covas que fomos enterrados. O problema da solidão é quando precisamos de alguém para amar e confiar. A solidão não se alimenta de solidão, nós que enviamos a ela, nossa carne ferida e nossas fraquezas. Ser solitário não é ruim, ser sozinho que é um infortúnio. Ser solitário é afirmamos que não dependemos de outra pessoa, construir nossos caminhos, olhar nossas fraquezas e conviver aceitando-se progressivamente. Ser sozinho é precisar de alguém para sentir os ânimos da vida, conviver com um desconhecido interno e olhar-se no espelho e apenas vegetar sobre o reflexo.

Consigo criar muitos conhecidos e colegas, todavia tenho dificuldades em fazer amigos. Raros aqueles que conseguem entrar em equilíbrio com meu caos. Geralmente, os conhecidos se interessam em minhas conversas, opiniões e uma companhia para dizerem os acontecimentos do cotidiano. Os amigos são aqueles que me confiam suas decepções, angústias e seus sentimentos profundos. E eu converso sobre a vida, minhas percepções da existência, meus sofrimentos e os conflitos.

— O espelho preto: na era da tecnologia, onde os reflexos que encaramos são aqueles do espelho do celular, criamos nossas máscaras e conseguimos às vezes fazer alguma amizade. Mas às vezes aquelas pessoas conhecem apenas nosso perfil, não nosso comportamento nem mesmo o tom da nossa fala. Apenas os filtros que usamos e as postagens que fazemos. No entanto, há quem consiga amigos. Ou diria conhecidos-amigos. Não sei. Há momentos que as máscaras também querem amigos

Todos têm problemas, penso às vezes que eles não querem entrar numa “furada” ainda maior. Escondo bem minhas angústias, mas às vezes preciso de alguém para verbalizá-las. Um dos meus problemas é a intensidade que eu sinto os problemas; não obstante, lembro-me das vezes que fui decepcionado desde os primeiros anos de infância, das rejeições e das palavras. Logo, acabo absorvendo frivolidades e alimentando angústias.

Um cenário aterrorizante, mas possível, é quando a pessoa que você confiou seus problemas se junta com a pessoa que lhe causou transtornos. Talvez para fazer ciúmes ou a comprovação que o caos existe. Também tenho aquele péssimo hábito de querer ser o centro das atenções, comportamento que eu enfrento, costumo querer atenção e não lidar com rejeições. Eu sei dos problemas, mas quando eu os sinto, é como lutar com os olhos fechados e com o coração na sola do sapato.

Quantas perguntas um coração machucado faz a si? Estou mais uma vez só.

Ainda não consegui aceitar-me e no reflexo do espelho quando não vejo lágrimas, encontro sorrindo um coração dilacerado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s