Crônica: submersão na fantasia do pensamento

A existência me fez assumir máscaras, não gosto de admitir minhas sombras, tampouco a brutalidade que compõe-me. Porém, contra minha vontade, as máscaras que atuo, abandonam-me com facilidade. Nem sei quem sou, nem o que posso vir a ser. Os dias passam, e me encontro sepultado na própria carne.

O sol foi embora; caminhando lentamente, chegou avassaladora a tempestade que um dia dancei envolto aos seus raios. Chuvas nem sempre anunciam tragédias, às vezes, são um sinal de recomeço; vivo entre chuvas e tempestades, há tempos não vejo o sol da minha janela.

Como falta sinto da época que era uma criança, que não reconhecia a instabilidade do real, que pensava estar seguro comigo. Hoje, não tenho segurança em dividir minha existência com quem eu sou, enxergo macabramente a sociedade, os adultos são como loucos em busca da perfeição. Por isso, o delírio faz-se presente na vida de todos; no entanto, deliramos tanto, que o mundo transformou-se em palco para os eventos tenebrosos que assistimos ao longo de toda a existência humana.

Pensara que possuía personalidade: até um vento reles troca minha tonalidade. Eu gostaria de não conhecer o sofrimento, nunca chorar, não saber a dor de uma mutilação; mas, uma voz diz: “O sofrimento também nos ajuda, chorar nos faz valorizar um sorriso, a tristeza de um tempo molda a esperança em outro”. Sim, eu sei; contudo, eu conheço o sofrimento, sei o que é uma depressão, ansiedade e humilhação; então, digo:

— Quero viver feliz, quero ser tolo. Eu sei o que é a dor, não preciso dela. Quero acordar sem saber meu nome, pegar a estrada e seguir meus sonhos. Não quero meu passado brigando com meu presente, sequer meu presente amedrontado pelo futuro. Se a vida é tem esse sabor ruim, não quero mais afogar-me nessa tragédia amarga.

A cada dia as pessoas que eu gosto parecem distantes; e às vezes convivo com tanto ódio, ansiedade e ressentimento que acabo ferindo elas. Os amigos, por vezes, não me entendem.  Nem todos conseguem viver com a instabilidade ambulante que sou.

Agora, não suporto mais sentir meu coração excessivamente triste e ansioso, tenho que me recolher: vou submergir ao mundo que eu guardo nas profundezas. O mundo da oficialização da banalidade da existência: ser ou não ser, prefiro ver o tempo sufocar-me. A ignorância é a sobremesa da existência, o prato principal é pensar. Os pensamentos são bons para a racionalização, porém ele mesmo configura nossas percepções que geralmente são a fonte para os piores problemas humanos.

Essa realidade fez-se fantasiosa, agora quero criar a minha própria: onde a metafísica não exista, um lugar onde exista razão. Sinto a vontade de desligar-se dos meus sentimentos, mesmo que os bons, vão embora. Quero que o tempo passe em um segundo, viver não tem seus encantos. Contudo, tenho receio da morte: não gostaria de encontrar-me pensando depois de morrer.

Ao beber água, sinto que aquele líquido representa minha dependência. Ao comer, a refeição faz-se apática. E quando sonho sou submerso em um mundo macabro. Estou negando a existência. E espero que a vida me delete do seu sistema. O coração pulsa, mas apenas pela configuração.

“O delírio desenha o mundo, o pensamento racionaliza e interpreta, os sentimentos sintonizam os resultados, e nós somos a vida aprisionada na existência dos mecanismos da mente.”

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