Os caminhos de Juana Bihotz

Um caminho nos leva onde queremos ir, tal como um passo nos conduz a destruição. A vida constrói-se de escolhas que às vezes achamos que decidimos; mas na nossa mente vive outros, se deixarmos, escolhem para que lado devemos ir. As palavras são fáceis de acreditar, difícil são vivê-las. Há aquelas que vêm suaves, levando-nos a crer. Mas acreditar nas palavras é um mergulho em que afogar-se é questão de tempo. “Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas”, disse Nietzsche. Os fatos mudam, as verdades adaptam-se. A fé move as montanhas sepultando-as na razão. O caminho que escolhemos são criados a partir da nossa verdade. A realidade é um animal sem instinto; nós transformamos o real empregando nossas pulsões.

O inconsciente domina-me, tal como um buraco negro, assim seria ele. É um lugar tenebroso onde há feras terríveis, personalidades puníveis, e tudo que eu fui lá está. A carne e o osso, apenas levo, em passos tortos, esses pesos na bagagem. Não sei em que parte minha alma encaixa nessa totalidade, talvez ela que anularia qualquer equação entre o sofrimento e a verdade. Sobrevivo na mente como alguém perdido numa ilha que tenha vulcões, animais perigosos e lugares atraentes que camuflam sua tragédia.

Sonhara que estava na frente de um senhor idoso, meio descabelado, baixo e com um semblante de pessoa rabugenta, porém sensata. Perguntava-me:

— Juana, vai por aí?

— Eu não escolho por onde vou, quando vejo, estou onde menos queria estar — respondi.

— Há na existência o sofrimento que nos molda; aceite-o. As vontades que transcendem nosso eu são necessárias para sentirmos a frivolidade do mundo. O seu caminho, Juana, é sua vontade de seguir caminhando para frente; porém, não há direções na vida: existe desordem. A desorganização do mundo forma a organização que todos querem acreditar. Uns buscam ordem para suportar o fato de que vivem livres em um mundo desordenado; a liberdade também nos faz procurar a escravidão. Nossa mente é uma caverna que vivemos em busca de proteção. No entanto, o que protege, também sufoca.

— Não creio nessa metafísica barata, sou quem sou. Não sou feita de vontades, sou feita de angústias.

O homem como representação ousada e desordenada da vida, evidencia uma visão hermética da existência. Pouco ele argumenta sobre o viver, geralmente diz sobre o existir; vejo que, entre viver e existir há uma implacável diferença. Considero que meu inconsciente não é totalmente confiável: vivemos a nos agredir. Talvez, este homem seja a representação dele. Ao sonhar com o senhor, acordo sentindo-se anulada e desesperada. Houve um tempo que todos os sonhos levavam-me às falas deste senhor. Sua conversa calma, seu olhar intenso, convergia com minha fala alta, meu olhar caótico e minhas considerações sobre a existência. Eu pensava que existir seria sentir o que é a vida; contudo, viver é repleto de caminhos e de olhares que às vezes são contraditórios. O senhor não visita meus sonhos há uns 5 anos, última vez que o ouvi era um dia antes de começar a faculdade de Psicologia.

— O psicólogo é alguém que além de lidar com seu sofrimento, escolhe ajudar os outros a descobrir-se — disse, sentado sobre uma pedra.

— Irei me formar, e ajudar os outros a seguirem seus caminhos. Talvez, encontre o meu ajudando-os — respondi, mesmo preocupada com a resposta.

— A faculdade lhe ensinará teorias conhecidas, como diagnosticar e ajudar. Contudo verás, que cada indivíduo é um oceano desconhecido. As teorias que auxiliam alguns, atrapalham outros.

— Por isso, pretendo estudar muito. Serei uma psicóloga que sempre estará estudando. A mente é meu fascínio.

— Não trata-se somente de estudar. O humano não é composto somente pelas lamúrias da mente; há todo um nó que o envolve: sociedade, aceitação, fé, crença e percepções. O estudo apenas será um auxílio finito.

Lembro das suas palavras a desconstruir algumas de minhas visões. Até os dias de hoje não atendi nenhum paciente. Entretanto, venho tentando compreender o que são os laços que envolvem um indivíduo. Ultimamente, estou chateada com os rumos da humanidade: pessoas autoritárias que humilham as outras, algumas que aceitam o desígnio controverso da humanidade para sentirem-se aceitas. Os caminhos dos indivíduos fazem da humanidade uma folha cheia de rabiscos. Ainda não seio o que acontecerá com tantas pessoas preconceituosas assumindo o poder: o que os olhos não veem, o ponteiro do relógio faz-se lente.

Não conhecemos ninguém, pois todos têm suas máscaras. Até nós somos cheios delas. A sociedade é uma pessoa sem alma. E nós indivíduos construímos a cada dia uma coletividade que nos impõe sermos igual a ela; e a mente com seus mecanismos oficializa o ato.

— Tu és a filha mais preciosa que uma mãe no reflexo do fruto sonha ter.

Dias antes de trocar-me pela liberdade, minha mãe pronunciou esta frase. Eu era como alguém a prendê-la; sei que para este cadeado ela não voltará mais. Havia um sonho, e eu não estava incluída, apenas habitava nesta frase desconexa com a realidade. As palavras tem o aroma que damos a ela, por isso, um discurso doce para um, é amargo para outro.

Nem mesmos as palavras governamos; o inconsciente seleciona, por exemplo, quais palavras usar em uma conversa. O pensamento é um anarquista totalitário. Quando perdemos o controle do pensar coisas ruins acontecem. Tenho TOC, e esta doença começara ao ter perdido o autocontrole dos pensamentos. Ao fazer o almoço vem um pensamento alertando-me que eu posso estar com uma doença contagiante e contaminar todos com a refeição. Ao jogar o lixo, vejo-o inúmeras vezes, no intuito de ter a certeza que não tem nada meu de importante lá. Ao enxergar dezenas de sacolas numa rua, tenho medo de alguém estar dentro e quando o caminhão recolher, alguém acabar morrendo. Estas frases parecem simples ou irrisórias, porém essa é a minha doença.

Não controlar os pensamentos é como não viver a realidade, criar sempre cenários difíceis e dolorosos. Tolo pode ser o pensamento, porém desencadeará atitudes, com intenção de aliviar a ansiedade. Luto contra esses pensamentos intrusivos, às vezes ganho, outras perco.

Não que seja difícil confiar nas pessoas, mas transforma-se em árduo crer em suas intenções. Sei que devido a experiências anteriores, minha rejeição a elas são ainda piores; contudo é tarefa penosa também confiar em mim. Eu magoei-me, há feridas que eu mesmo causei, como se houvesse uma espada sobre minhas mãos e eu a passasse ante ao meu corpo e a afundasse tão fundo que penetrasse minha alma e levasse junto meu coração.

A Juana Bihotz é um conjunto de construções, traumas e enredos psíquicos, mas o verdadeiro eu, ainda é um mistério para mim. Às vezes a vida é insuportável, dores são sentidas ao máximo, sofrimentos em diferentes intensidades. A dor que sinto em ter sido abandonada, de inúmeras vezes humilhada, a tristeza que tenho ante aos problemas do passado, a ansiedade que possuo sempre fazendo minha realidade um cenário aterrorizante. Há um Deus e eu não o conheço mais. Queria saber o motivo de estar viva sem minha vontade. Não o culpo por decisões que eu tive ou os outros regeram sobre mim. Mas existem inúmeras circunstâncias que eu o responsabilizo. Principalmente, pela minha existência. Eu não queria ter nascido, todavia, como cruzei a linha entre o ventre e o mundo, irei lutar e buscar meus caminhos, seja eles quais forem.

Ao longo dos anos, vários caminhos eu acreditei que levariam à felicidade; noto que, o caminho da felicidade sempre está em construção. Foram tantos os sofrimentos, tantas lágrimas desceram sobre meu rosto, que ter um coração que pulsa é um milagre. Minha dor ainda é grande, não há como descrevê-la. Consigo apenas ilustrar como se eu carregasse um coração triste e pesado, uma mente rígida e sofrível, um ego autoritário e defensivo, uma alma triste e solitária, um corpo machucado e abandonado, olhos que veem a face monstruosa e desordenada do mundo. O único caminho que estou agora é o da descoberta. Conhecer-se é doloroso, admitir nossas sombras, saber de nossos erros.

Há um caminho que nos aguarda e outro que devemos deixar ir. A vida é feita de caminhos, cada escolha nos levam a um lugar. E querer trapacear não resolve, sabemos bem a história de chapeuzinho vermelho quando pegou um atalho e o caminho dito curto foi o tempo necessário para que o lobo chegasse a casa da avó primeiro. Devemos ter cuidado com a influência de terceiros sobre nós, os caminho deles podem ser estradas vazias para nós. Pois todos os caminhos são um mistério para cada indivíduo. A vida do outro sempre é melhor, mais feliz: não, não é verdade. Aos olhos de outros, há aqueles que pensam que nossa vida é melhor; e quando estamos triste é como uma blasfêmia a sua realidade.

O caminho que estamos agora, seja belo ou trágico, é a estrada que formamos. Se este caminho é o que escolheu, saiba que ele te deixará. A estrada é fixa, nós não. Sejamos conscientes nas estradas que criamos, talvez assim, nos encontramos. O caminho é caminhada entre o sofrimento e o equilíbrio. As pessoas nem sempre são más, umas não conhecem o ato da bondade. A vida precisa de pessoas que pensem em todos, deixarmos o ódio de lado, e buscarmos ouvir nossa alma. O mundo passou por enormes guerras e epidemias, e ainda o sol continua a brilhar.

Vamos deixar que nosso caminho seja iluminado pela lua, conduzido pela esperança e governado pela gente. Existem muitos mistérios na vida, um deles somos nós. A dor nos espera, mas sejamos fortes ao entendê-la. O sofrimento ás vezes é o passo que nos conduz a direção correta. O amor se torne nossa fonte, a paz nossa visão. O lugar que estamos hoje é passageiro, sejamos confiantes e tenhamos compaixão.

Deixo o velho caminho
Para seguir em frente
As estradas sempre
mudam
E o caminhar nos
moldam
A estrada abre-se
Um novo dia começa
A alma pulsa
Os espinhos são beldades
que fazem da rosa sua significância.
O amor compreendeu-me
e o caminho eu ergui.
A vida é existir
Amar e sofrer
Toda vida é distinta
Todo ser é único
Os caminhos são diferentes
Mas ainda continuamos sendo
A alma do universo.

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