Como se sente?

Caminhando pela cidade, encontro um conhecido. E ele faz uma pergunta que despertou minha ira. Estava cansado de respondê-la de maneira aceitável.

— Como se sente?

— Bem.

Nem de longe era o que queria responder. Então, respondi dessa vez a verdade. Havia eu e ele naquela calçada, perto de um morro. Não liguei para nada que pudesse falar, nem hesitei em aumentar a voz ou quase chorar.

—  Como uma lágrima entre milhões de chamas ardentes que irão evaporá-la.  Como se eu fosse um espinho entre milhões de balões. E às vezes como se fosse um balão entre milhões de espinhos. Tal como uma ovelha em um fast-food para lobos. Ou como um lobo entre milhares de ovelhas. Como uma tempestade em milhões de primaveras ambulantes. Como uma música que ecoa para longe, sem destino, sem quem a toque. Sinto o silêncio que perfura os sonhos que venho a imaginar — Por mais que haja luz a minha volta, a escuridão afogou-me. Sobre minha cabeça há gigantes pedras, sobre meu coração uma espada a atravessá-lo. Estou em um mundo cheio de doentes que não conseguem se ajudar. Há inúmeros seres que fazem do mundo seu horror, criam guerras, eliminam sonhos. Transformam o mundo em um rio de sangue, destroem lares, famílias e amigos — no final, ganham a eleição. Como é triste ver uma criança criar ódio, e fazer dele sua companhia. Ouvir o barulho das bombas, dos gritos, dos choros, das balas perdidas e ter que seguir em frente com essas melodias. Eu sinto que sou pessoa que não consegue mais amar.  O amor está deixando-me cansado, pois quando amo, sinto a dor deste mundo. A dor das pessoas abandonadas, violentadas e perdidas em suas inocências. Havia em mim a tristeza, contudo, a dor deste mundo e as minhas próprias estão fazendo-me agonizar em meu pranto. E ódio encontra-se embalado em meus braços. Não espero nada desta vida além de egos a se misturarem. Um dos meus arrependimentos foi nascer — Agora mesmo poderia pular de uma janela, cortar meus pulsos, rasgar minha garganta, enfiar um garfo entre meus olhos e arrancar fora meus ouvidos. Deleitar-me-ia sobre cada pedaço do meu corpo sendo arrastado pela cidade. O sofrimento quando na carne é muito melhor quando sobre o espírito. Meu coração dói, pulsa cansado e dolorido, pulsa mostrando o som da minha dor. Sinto-me como numa floresta escura sendo perseguido, e por mais que eu fuja, ele me encontrará, pois ele também sou eu: conhece minhas dores, meus passos, e quer me ferir, pois de alguma maneira o machuquei também. Há inúmeros monstros dentro de mim, que fazem do meu espírito seu espaço de lazer — Ah, mas também vejo que sou um monstro e a vida tenta me atiçar, e existe algo além a me olhar e ver o que irei fazer. Sinto-me abandonado e condenado a viver comigo mesmo.  Eu queria ser diferente, não eu. Por exemplo, nem direito eu consigo explicar como é sentir uma dor inexplicável, que lhe acorrenta e faz-lhe desejar permanecer enterrando sobre a escuridão, porque a luz se tornou tão distante — Há momentos que eu quero ver a luz, porém a escuridão me faz acreditar que eu não conseguirei vê-la como antes. Nem tenho certeza se um dia já a vi; eu queria recomeçar sem memórias: esquecer quem sou, quem fui, quem queria ser.  E outros momentos anseio esquecer de como é mesmo respirar. Às vezes há alguém na janela a me julgar.  As casas estão abandonadas, os jardins solitários e as fontes envenenadas. Um coração machucado é difícil se enganar, quando doce, até uma borboleta fazia-me sonhar. Agora, eu sei que, entender o mundo és também sentir sua dor, e não entendê-lo — é sentir a dor dele sem ao menos saber. O mundo sofre, nós sofremos. Eu tento desenvolver uma compaixão, mas às vezes a tristeza e a culpa são maiores que qualquer sentimento de amor. Sou limitado, num vejo nem uma formiga debaixo de minhas árvores. Todos precisam da tristeza, porque ela também é nosso passaporte para a felicidade. Mas minha tristeza está vencendo-me, retirando qualquer alegria que eu tenha. Aceeeeeennnnn daaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa  aaaaa luuuuuuuuuuuuuuuuzzzz!  É isso que gostaria: estar envolto à luz. Sinto ódio e raiva da vida.  Não sou um bom escritor, sempre me pergunto o que eles escreveriam em meu lugar. Penso que ninguém se importa com ninguém, raras exceções, raras.  E esta pergunta “como se sente” é apenas para constar que os outros também mentem.

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