O teatro das folhas mortas

Caíste a folha — morrera o sonho;
Estou indo mal, Universo;
Minha consciência tornaste pólvora;
O meu coração um ninho de cobras.

Nas circunstâncias do apetite
Meu intestino devorou meus olhos;
Uns morrem de fome, outros de gula.
Eu morro mesmo é de fúria.

Continuei a ser putrefato;
Não alimentei os famintos,
Nem ajudei os jericos;
Deixei o vento deles seguir.

A música não encontra abrigo
No triunfo de meus ouvidos;
Estou destinado ao ensurdecimento
Nesta minha terrível vida.

Descobrir que estou só;
Que o mundo é o paraíso das
Feras que há em mim.
Estou a sucumbir.

O cair da segunda folha:
Minha alma encontra-se pútrida;
Não tenho mais compaixão aos
Seres da minha vida.

E pensar que os amigos
Que um dia abraçavam-me
Estão compondo suas próprias
Sonatas.

Pensei que era um livro
Especial;
Infelizmente na minha seção
Encontram-se os livros desprezados.

Não deixe-me crer na metafísica.
Niilista de carteirinha
Busquei a face monstruosa
E desordenada da vida.

Soube há pouco
Que pouco saberia
Sobre meu destino
Neste ensaguentado corpo.

Depois irei brincar
No pêndulo da vida;
Quero balançar os ecos
Da minha penosa rotina.

Caísse longe a terceira folha;
O esgalho está nu
Assim como os olhos humanos
De ternura.

Certo e errado
São escolhas
de uma vida.

E quem errado
Fosse
Crucificado seria
Nas madeiras da árvore.

Os humanos condenam
Escolhas e práticas erradas
E condecoram os cidadãos corretos.
Uns ganham aplausos, outros votos.

Tentei amar os difíceis,
Entender suas mentes,
Todavia percebi que o mais terrível
Era eu.

Brincando de ser poeta
Notei que jamais seria
Feliz nos versos de outros.
E mataria mais árvores
Escrevendo minha dor.

Nada adianta criticar o mundo
Sem antes criticar a si.
Nem vale nada amar os outros
E odiar quem tu és.

O cair da árvore:
Caíste aquela pobre
Natureza arruinada.
Foi assim bem rápido.

Aos poucos as muitas folhas
Abrigavam-se no chão.
Não havia esperança.
Tampouco compaixão.

Todos os moradores
Foram ver o destino
Daquela que um dia
Protegeu-lhes na sombra.

Sobre os pés da multidão
Havia folhas caídas.
Todos estavam aborrecidos.
Alguns gritavam.

A árvore estava morta.
Estendida no chão
Sobre toda a batelada.
Cheirava a sonhos perdidos.

E naquele dia
Todos na cidade
Choravam pela árvore.

E as crianças de mãos dadas
Faziam roda em frente
A árvore caída.

Foi quando todos
Com novas sementes
Plantaram novas árvores.

Lembro-me que minhã mãe disse ao meu pai:
— Assim como as árvores
São nossos sonhos.
E se um dia as circunstância
Da vida matar nossa árvore,
Ainda teremos sementes para
O surgimento de um novo jardim.

E todos aprenderam a cuidar
Das novas árvores.
E quando uma folha cai,
Mesmo que velha,
Nós plantamos novas árvores.

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