O violinista

Adianto que não sou um bom escritor; minha esposa, segundo ela — tenho o dom de escrever uma história igual de Machado de Assis, porém chata e confusa; e dom não se desperdiça. Estava em dúvida quanto a escrever estas palavras. Tenha certeza que não será fácil. Não sou ninguém em que enxergou na literatura algum fascínio. Sempre gostei da música; lembro-me que desde cedo escutava o som do violino. Acabei de completar 75 anos; na juventude, pensava que jamais passaria dos 30. Ainda tenho algumas percepções niilistas da vida — sempre temos nossas desvantagens. Tenho arrependimento de ter sido uma pessoa triste em minha existência quando jovem, mas ela ajudou-me a formar quem sou. Resolvi compartilhar minha história com vocês.

O dia em que me perdi na minha própria essência, sem dúvida foi o pior momento de todos. Estava com 23 anos, enfrentado uma depressão desde os 16. Neste período em que estava perdido em meu próprio corpo, não achei a chave de minha alma. Muitos de nós já ficamos presos do lado de fora, esperando alguém jogar a chave, porém — é sempre pior estarmos preso do lado de dentro, e ademais, sem luz alguma — nem chave à vista.

O coração batia aceleradamente, o lado esquerdo do cérebro queimava — meu corpo sofria penosas consequências, e meu peso oscilava entre escanzelado e ventrudo; ansiava excessivamente pela desistência — antes não havia a internet, nem nada que pudesse ver outras pessoas que estavam passando pelo mesmo problema; depressão era um tabu ainda maior na época. Não aguentava mais sentir meu corpo: era muito ruim, doía assustadoramente. Todavia, a esperança permanecia — mesmo que — limitada. Eu ia a praça e escutava música; lutava pela vida. No entanto, cada dia que fluía a minha dor aumentava. Não sabia onde estava, nem quem era, desejava apenas chorar e apagar-se diante de todos, queria dormir e jamais acordar. Este sentimento não fora causado por ninguém. Não culpo nenhuma pessoa, além deste miserável ser que alimentava-se do meu interior.

Em certa madrugada acordei às 4 horas, fui ver a lua: quando estamos feridos contemplar as belezas do mundo nos traz de volta, ainda que, lesionados pelas feridas na alma. Como meu coração doía, dor incalculável. Nenhuma aresta de luz findava no meu coração; refletia que o meu fim chegava. Realmente, via na morte minha última esperança; eu digo que há em nós um sopro de vida — algo que se assemelhe ao calor; nas circunstâncias que esta força é diminuída, nós ficamos à deriva em um ambiente repleto das mais variadas energias; e não gostava de estar pedido no meio de milhões de outras consciências. Um dia houve em meu coração um desejo de viver para sempre; contudo reduzia a cada instante que conhecia a minha própria vida. O mundo estava envolto a trevas desconhecidas, no centro havia o eu.

 Rente ao espelho, vislumbrava o meu rosto — não conhecia-me mais, não sabia o homem que estava a minha frente. Olhei o relógio, marcava 6 horas; olhei os meus olhos transmitia um ser incapaz de conhecer o Universo. Todos esperam de nós, nossa projeção de quem um dia já fomos; confesso que geralmente esperava dos olhos alheios o meu próprio espelho — por isso, a única coisa que vejo é o julgamento de terceiros sobre minha sombra. Foi nesta manhã que algo aconteceu: o meu coração não incomodava-me, um sentimento de desespero emergiu cada carne de meu corpo; critiquei e o rotulei que havia apenas um órgão composto de tecido. Naquele momento não coexistia nada sobre a matéria: um talhe de encontro ao nulo. Contudo, realizava-se no meu íntimo uma revolução — o corpo não dependeria mais da consciência; de imediato esta situação me perturbou e também me deixou ébrio.

O homem medroso tornou-se medonho — jamais pense que um homem livre de sua mente transforma-se em o libertário da própria existência. Não deixaria ninguém destruir minha exaltação perante ao estado de nulidade. Amar molda-nos fazendo de nós pessoas melhores, ou ampliando nossa força avante ao caos; no entanto, nem uma ponta de compaixão despontava da finitude da minha mente. Em certa ocasião da semana — minha então namorada na época começou a xingar-me — dei um tapa em seu rosto, senti uma liberdade atraente em minhas mãos. O ódio é o sentimento que até em um ser que nada sente, poderá manifestá-lo — pensando este, que é dotado de boas intenções; considerava que sendo rústico, jamais sofreria novamente. Nesta época deixei de tocar violino. Sentia-me leve. Uma leveza que dominava meu ser. Semanas passaram-se para descobrir que a força que movia-me também me revolvia ao nada.

Um tempo depois a namorada tornou-se ex. Não podia amá-la — nem de seus doces aromas compor uma partitura. Decidir ir ao apartamento de seus pais pedir desculpas, porém ouvi a recusa; vindo para casa o pior que um ser humano poderia imaginar aconteceu comigo. Um homem vestido de uma capa escura, seu rosto não se via;  de estatura média, o corpo ereto — apontou um objeto pontiagudo, e assaltou-me. Reagir. Durante aquele instante, este ser convertia-se em todos os meus problemas, nas minhas derrotas, no meu sentimento de inferioridade; significava tudo de ruim: o exército rival, o time adversário, o país em guerra; sentia-me como uma autoridade inabalável. Não sabia sua história — nem o que leva um homem a roubar — ainda mais durante aquele período de minha vida. Virei com força para trás, tentei segurar sua arma, ele atingiu-me no braço, acabei caindo, quando ele iria usar aquele objeto em mim, eu o derrubei com os pés, ele caiu no chão, então, comecei esfaqueá-lo sem cessar. O corpo dele transmita fracassos e um ser humano cansado das derrotas da vida, porém só visualizo isso atualmente. Ele acabou falecendo, no chão nefasto perto da praça de Floriste. Chamei a polícia; mais tarde saberia que seu nome era Rafael, deixou uma família desesperada. Não senti culpa. Nada. Fui para casa. Que noite atribulada, pensei.

Em consequência da briga, havia ferido o braço. Nem dei importância; o ódio que sentia neutralizava a dor. Semanas depois, fui processado pela família dele, porém ganhei. Uma família humilde, nem liguei para o choro ininterrupto da mãe na sala de audiência, ainda a culpei. Disse a ela, palavras duras, ela disse-me que era faxineira, o filho perdeu a oportunidade de estudar, pois tinha que sustentar os outros irmãos, que às vezes não havia comida, acabavam alimentando-se de histórias. E que o filho se revoltou quando acabou perdendo o irmão Júlio, porque quando trabalhavam no sinal, surgiu um motorista bêbado em alta velocidade, ocasionando a morte de seu irmão. Não teve mais estômago para trabalhar em nenhum lugar. Foi roubar, contudo estava mudando. Eu apenas falei que ela era uma mãe terrível, que com certeza era culpada. Ela apenas me olhou com um olhar de tristeza. Conseguir ganhar o processo. Certo dia encontrei-a vendendo balas no sinal; hoje, eu deduzo a dor que sentia de enxergar o fim trágico que os dois filhos levaram; e a miséria alto grita nos corações dos injustiçados.

Na manhã de Quinta-feira acordei com o braço doendo, tomei alguns analgésicos, fui ao trabalho. Estava enraivecido. Não me importei com a dor; nem nada. Estava ocupado justificando minhas atrocidades. O mal sempre estar onde o bem faltaste. Não pondere que este texto aspira a metafísica, busco evidenciar o que um dia vivi. Chegando sexta-feira novamente fui ao hospital — estava com uma bactéria no braço, devido ao machucado. O doutor levou-me a sala de cirurgia, consequentemente tive que amputar um braço. Este desenrolar me surpreendeu, uma vez que, em segundos os entrelaçamentos que eu criara chicoteava-me antes que pudesse piscar.   Acordei gritando; naquele momento eu senti a culpa por ter matado outra pessoa; naquele instante eu compreendi onde estava indo; achava-se morto no próprio corpo; chorei ao lembrar-me do relato daquela mãe. A raiva havia me deixado — porém a tristeza iria acompanhar-me por toda minha desgraçada vida. Foi quando o médico entrou e disse que a infecção estava muito forte e teria que retirar outro braço. O nó que eu estabelecera convertia-se em espadas que destruía toda noção de tempo em que estava inserido; em um intervalo de tempo estava sem os membros; nem mesmo um olho pisca tão rápido quanto aqueles ápices; estava em choque, apenas consenti. Precisou de tudo isso para eu descobrir que eu era feito de carne.

Com o tempo — acabei recebendo alta; perdi o emprego. Trabalhava como administrador. O sonho acabou; deixei-me ser emergido por ossos, que nunca pude construir esperança. O tijolosda minha soberania transformou-se em adubo. Nada podia fazer. Sozinho adaptei-me. Esperando morrer… descobrir o Girassol. Um psicólogo ajudou-me a perdoar-me, seu nome era Girassol — nunca entendi este nome, contudo para sempre conhecerei sua bondade. Fora difícil entender meus erros, compreendê-los tornou-me inclinado ao remorso; todavia pessoas certas transformaram um homem medonho em um esperançoso e sonhador. Ainda tenho percepções niilistas da vida; há momentos em que não consigo enxergar-me, outros que vejo a face rosada do meu
Universo. O tempo não é nada além daquilo que podemos transformá-lo; haverá sempre uma semente esperando para ser plantada nas frinchas de nossa inconsciência. O perdão não é uma palavra, esconde dentro de si, a força vital do amor.

Comecei a tocar violino novamente; todavia com os pés. Há anos toco no teatro de Voet, um espaço que ajudei a construir. Geralmente, sou acompanhado de bons sentimentos, no entanto, por vezes, tenho que lutar com os maus. Gosto de ouvir Shlomo Mintz para conectar-me com o meu dom. Faz 30 anos que eu toco violino com os pés. Não construir uma grande carreira. Semana retrasada toquei para monges — daqui alguns dias para crianças; nunca pedir desculpa para a mãe daquele homem; nunca mais a vi. De vez em quando queria voltar no tempo — desfazer todas minhas perversões. Sou hoje uma pessoa melhor, sempre em evolução. Ainda choro vendo a lua. Peço perdão a vida… Não sabia como viver: era uma carne sem alma, uma casa sem janelas, uma chuva sem terra. Perdão. Estou aprendendo a viver — não sei se você pode perdoar-me, todavia não estarei aguardando sua resposta — estarei ocupado perdoando-me e fazendo o bem.

Considerações:

Meu nome é Elias Pid; meu nome artístico é Íreste Voet — sou deficiente físico, violinista e um ser humano em evolução. Peço a vocês que não condenem minha vida, nem rotule meu trabalho. Eu errei. Eu matei. Naquele dia eu matei aquele homem, e também morrera parte de quem sou. Entretanto, estou nascendo todos os dias. Não sou um bom escritor, por isso, relevem meus erros gramaticais. Quero viver; mas não faço da vida um eterno caminho; sei para onde estou indo. E construo todas as manhãs novas oportunidades.

 

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