Os compositores da liberdade

Acordou às 6 horas para um passeio solitário. O dia estava perfeito, arrumou-se para uma volta corriqueira na praça. Neste dia ela não se sentia como de costume. Não sabia o que faltava, tampouco o que buscava. O seu passeio na praça da cidade de Floriste era desanimador, assim como seu apático rosto. Submetida a sua essência melancólica, andava cabisbaixa até o destino final; sua mente controladora e indômita lutava contra sua alma aventureira e libertadora. No seu álgido rosto de 16 anos havia o enterro de sua tristeza; porém, somente olhos atentos percebiam sua tragédia facial, olhos que veem com a alma.

Sua pouca idade vedava uma abundância secular de melancolia. Ela ansiava por aproveitar totalmente os risos vida. Entretanto, ao ficarmos presos nas lentes da inconsciência, interpretamos o mundo com a consciência errada. Estava presa na reminiscência de sua mente.

Na praça vê o rotineiro, nada que animasse seu gélido coração. Até que desponta na pútrida fonte dos devaneios uma transgressão: subir em cima de uma estátua. Prendeu o cabelo para trás, ajeitou os sapatos e aflorou sobre o granito. Uma liberdade que sua consciência logo a condenou, contudo foi ignorada pela aventura. O guarda que encontrava-se na praça ficara enraivecido com a situação. No banco longínquo, em que estava sentando via-se a cena deplorável aos seus olhos. E com seu andar assente fora reprender a garota.

— Não sabe que é um bem público? Retire-se — asseverou o guarda.

— Sim, espere sua vez — retrucou.

— Como assim?

— Não quer sentir a liberdade?

— Está drogada?

— Não sabia que felicidade tornou-se droga.

Quem visse o guarda pensaria que a enorme veia em sua testa era uma má formação; de personalidade irritável, passou 2 degraus da insanidade raivosa. Esta jovem não pode falar como quer com um protetor da lei, pensava ele. Nem todos podem experimentar a liberdade. Uns a acham terrivelmente imorais. E vivem a garantir que os limites sociais não sejam violados por nenhuma aventura. O guarda agarrou os cabelos loiros e cacheados da aventureira e a jogou no carro da polícia de Floriste. Quando os pais da garota chegaram ouviram o relato desproporcional.

— Senhores, esta jovem enlouqueceu! Desacatou a lei, desrespeitou os contíguos desta cidade, abusou das normas sociais públicas. Ou corrigimos agora, ou veremos no futuro ocupando uma cela no presídio de Buevur!

O guarda empoderou sua vós. Falou assiduamente sobre normas e comportamentos, em nenhum momento gaguejou. Via-se um olhar diabólico no fundo de seus olhos. Citou o presídio municipal de Floriste. Buevur era um tabu aos homens de alma pura, um lugar para pessoas irreparáveis, um poço de horrores, onde a epifania seria apenas um café das oito. Conseguira produzir um discurso tão convincente que fizera os pais desejarem uma lição para a filha, logo recomendou 1 mês na prisão de menores infratores, assustando os pais, que ansiavam uma punição moderada. Depois de dialogarem decidiram enviá-la paro o CRP (Centro de Repouso Psicológico).

— Vocês são ótimos pais, verão que sua filha sairá redimida — afirmou o guarda.

— Assim espero, não quero vê-la amanhã em um presídio — disse o pai.

— Cuidem bem dela, acho tudo isso desnecessário — disse a mãe aos prantos.

— Senhora, desnecessário é visitá-la em uma prisão. Desnecessário é deixar ela achar que pode fazer o que bem entender. Verá que este corretivo é o adequado, e ademais, no futuro ela lhe agradecerá.

Os pais não quiseram vê-la, temendo arrependerem-se do acordo com o policial. No outro dia fora levada ao centro psicológico. O lugar era mais apresentável do que vemos em filmes. Ficaria em um quarto no primeiro andar, o segundo andar não possuía janelas, pois pessoas que estavam tratando de depressão poderiam ocupá-los. Já no primeiro andar havia uma janela de alumínio, o dormitório era pequeno e teria que dividir espaço com Gelize, sua nova companheira de quarto. Não estava acreditando que uma simples transgressão inocente convertera em uma punição austera.

Nada se sabia de sua colega de quarto, o seu rosto aparentava ser rabugento, sobrecarregado e nada confiável; os diagnósticos ficavam pendurados nas portas de cada paciente, logo via-se o nome de Gelize atribuído à compulsão alimentar, seu sobrepeso não a incomodava. Ficara atordoada ao ter que dividir o minúsculo espaço que dormia.

— Qual seu nome? perguntou Gelize.

— Sabriela.

— Que nome estranho! Aposto que os seus pais também não batem bem.

— Desculpa, mas Gelize não é nenhum nome exemplar — retrucou.

Ao ouvir essa afronta, sua resposta veio em um soco na boca, fazendo com que Sabriela também devolvesse. A enfermeira Catarina separou as duas, em seguida levou-as para o pátio, iriam ficar 3 horas em frente ao quadro de Freud. Uma olha para cara da outra, olham fixamente para dentro delas, como quem busca uma solução embaraçosa.

— Olha… desculpa. Não sou muito sociável —, disse Gelize.

— Tudo bem. Poderia até não lhe desculpar e agir como uma inimiga. Mas somos colegas de quarto, devemos nos respeitar.

— Colegas?

— Sim, boas colegas.

— Como gostaria de ser chamada? perguntou Gelize.

— Ah… pode ser Sani. E você?

— Lize.

Ao passar dos dias as duas eram amigas, deixaram as afrontas inicias para trás; nem parecia que ambas estivessem internadas, almas desatentas poderiam dizer que elas estavam de férias, divertindo-se como dois corações em busca de alegria. Sani recebera nenhum diagnóstico médico, porém em cima de sua porta estava escrito que ela era impulsiva. Há aqueles que rotulam todas as emoções, todos os corações em pranchetas diagnósticas, esquecendo-se que nós somos energias que destroem qualquer tipo de marca sobre a gente.

Faltavam apenas 3 semanas para a saída de Sani, fazendo Lize ficar melancólica e raivosa. Às vezes encontramos nossas almas gêmeas no meio da batelada sofredora, não em uma situação de contos de fadas. Uma era triste, solitária e ansiava o poder da liberdade, outra descontava na comida o isolamento, a baixa autoestima e o vazio existencial. Agora, ambas completam-se.


O banquete de Mariah

Senhora Mariah era a diretora do Centro de Repouso Psicológico, todos os anos concedia um baquete aos pacientes; no final, mesmo com a bagunça, era recompensador. Era uma boa mulher, porém mantinha um ar de rígida, vestidos caóticos e um chapéu preto feminino que usava, compondo sua presença em todos os lugares.

Dias antes do banquete, fora ao quarto de Lize que enfrentava o problema de compulsão alimentar e pedira para que ela comesse uma comida diferente. Ela concordou em comer alimentos mais saudáveis.

No outro dia convencera aos pacientes, nos quais ela chamava de inquilinos, de fazerem uma apresentação de teatro, dirigida pelo psicólogo Girassol. O clima era de festa no local. Há pouco fora ao salão cortar o cabelo, em seguida, à chapelaria. Dias felizes em um local de recuperação é o sonho de todo o recuperador.


Abram as cortinas

O psicólogo Girassol, apelido carinhoso dado por certo paciente, preparou o espetáculo digno de um mestre de cerimônia, os recursos eram poucos, entretanto a vontade o movia.

O primeiro espetáculo era composto de 14 pacientes, entre eles Sani, que fazia o papel de uma jovem rebelde incompreendida; Lize não fora à festa. Ao todo aconteceram 6 apresentações; o último foi uma dança de Mariah e Girassol.

A música que alegrava o ambiente depois de tantos espetáculos era de Rita Pavone — Datemi Un Martello. Às 19 horas o jantar aconteceria. Sani foi ao quarto de Lize para alegrá-la, porém ela não estava. Saiu procurando em todos os lugares: nada. E a sala de jantar viera a sua cabeça, não conseguiu esconder seu olhar temeroso ao pensar neste local, fora apressadamente ao local estarrecedor.


O banquete — desfecho

Chegando na sala de jantar Sani não vira ninguém, porém a mesa estava dilacerada. Era tarde demais. O Transtorno Alimentar compulsivo venceu. Chorou sobre a mesa, respirou fundo e foi procurar a amiga, de repente viu a mesma caída se batendo no chão, estava tendo uma crise. Ela gritou. Os médicos rapidamente chamaram uma ambulância para levá-la para um hospital adequado. Mariah não deixou Sani ir. O espetáculo da noite acabou. Girassol ficou ao lado dela enquanto Mariah acompanhou Lize ao hospital. Estava desolada, sua única amiga comeu até quase a morte. Pela primeira vez, o local vislumbrava ser maligno à sua presença.

No dia seguinte descobriu que Lize estava em estado grave. Era escassas as notícias vindas do exterior da clínica, o que aumentava sua preocupação. Percebendo sua inquietação, Girassol propôs uma conversa.

— Daqui alguns dias você sairá Sabriela. Não fique triste, você não é culpada por nada. Há algo que queira falar?

— Eu não entendo, ela era minha única amiga, minha alma gêmea, era para eu ter ficado todo o tempo com ela. Sou culpada sim.

— O conceito de alma gêmea é uma analogia. Ninguém tem a mesma essência que você. Quando criamos uma pessoa que consideramos ela um desdobramento de nós, acabamos por rotulá-la em nossos conceitos. Agora, você deve pensar em seu tratamento, que aliás não é nada. Você tem que aprender a ser livre sem que dependa de outras pessoas. Deve aprender usar sua imaginação. Quando sair, poderá vir ver Gelize.

— Sabe… O mundo é tão vasto, tantas ideias, religiões e opiniões. Sinto-me nada diante dele. Acho ele perigoso. A natureza é cruel. Nós somos cruéis. Parece que o mundo não tem sentido, nem nada.

— E por que dar sentido ao mundo? O próprio sentido é um rótulo. Você não é uma ideia, é o conjunto dela. Existir várias crenças e ideias é uma realidade. Não se pode fugir dessa constante. Aceite. Caso a ideia pareça absurda: reformule-a. Não esteja presa em seu mundo, visite o mundo de cada pessoa, até mesmo o mundo da natureza. Não determine o que é o mal e o bem nas coisas, determine o seu mal e suas grandezas, cresça conscientemente. Não nos cabe dizer que a natureza é má, se também a matamos. Você está livre neste mundo.

A conversa com Girassol fizera bem ao seu coração; aceitara o mundo incoerente em que vivemos. Dias depois fora embora da clínica, despediu-se de Mariah, infelizmente Lize ainda permanecia internada. Pensou que quando fosse para casa iria brigar com os pais, ao darem ouvidos a um guarda rabugento, porém seu coração não queria perder tempo com intrigas. Seu sentido de liberdade estava envolto a dúvidas, seu rosto permanecia um cemitério de almas tristes.


Acordou às 6 horas para um passeio solitário. O dia anterior fora chuvoso, sua rua estava molhada, pensou em desistir, mas foi assim mesmo. Nenhum resquício de preocupação quanto ao guarda irascível. Caminhando de forma remansosa chega a praça de Floriste. Olhando a estátua causadora de sua detenção projeta uma sombra triste em sua alma.

Alguém toca sua costas, seu rosto volta à vida, soube na hora que era Lize, ficara abundantemente feliz em poucos segundos, olhou para trás, porém o seu coração enganou-se, pois era o guarda a provocá-la, todavia este obteve o silêncio como resposta. Sempre foi triste, agora estava triste e altruísta. Não poderia deixar que pessoas nocivas lhe machucassem. O seu instinto quis acreditar que Lize estava de volta. Lembrou-se de Girassol a dizê-la que almas gêmeas são rótulos; não poderia imaginar que Gelize era seu desdobramento, porque isso é uma forma de prisão. Deveria concentrar-se em si, na sua liberdade e na sua essência distante.

O guarda ria, contando a história que a levou ao centro psicológico. O vetusto rosto do homem fardado a lei, evidenciava sua prisão. Era um preso da lei, que prendia em nome dela também. Não era feliz. O riso de um dia é interrompido por um berro no escuro, no fundo era vazio e perdido.

Continuando a rir, falando seu nome em vão, provocando-a, recebera o silêncio como triunfo de causa. E de repente outro toque em suas costas, irritando-a profundamente, olhou para trás e em voz de uma pronúncia de desacato cala-se. Ficou sem palavras. E tentando compreender, aceitou que era Lize ao seu lado. Sua alma gêmea estava livre. O seu sorriso converteu-se em lume, o abraço das duas em dança, as palavras em poesia.

Se um dia fui tristeza
Posso apenas dizer que
Hoje sou luz.
Entender o mundo
É um desperdício
De aventura.
Que todo o coração
Componha a liberdade.

O coração das duas tornou-se composição da liberdade. Olharam para a estátua e dançaram em cima dela. Estavam felizes. Eram músicas ambulantes. O guarda correra atrás das duas em desagrado da situação.

— Voltem já aqui! Suas loucas!

E perdeu-as de vista. O coração do guarda não cantava, nem poetizava o som. Pois só os loucos compõem a liberdade.

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