A poeta sem poesias

Bem não estava. Em um ângulo longínquo via-se uma decrépita caída no tapete Savona níveo de sua sala, dizia abobrinhas a ninguém. Estava em crise de abstinência, parou de tomar os antidepressivos. Estava chorando como alguém que berra ao perder o único amor de uma vida; sobre isso, amar nunca esteve em seus planos.

Uma mulher vitoriosa, assim dizia Daleno, seu irmão. Sobre o rapaz não poderia ser dito o mesmo. Gostava de sair nas noites gélidas da cidade de Floevile, uma cidadezinha no interior de Alagoas. Possuí dois filhos, nos quais, ele ainda não chegou a ver seus rostos. Estuda Letras, entretanto, gostava de usar a língua para outras coisas. Vivia a pedir dinheiro à sua irmã, esta mulher dominada pelos remédios.

Mulher infausta, assim, ela mesmo chamava-se em frente ao espelho. Sofrendo de tonturas, pela causa já citada, olhava fixamente nos seus olhos, de uma mulher que estava mais perto da insanidade do que um dia esteve. Era diretora do colégio “Ardineu Regiz”, uma das escolas mais enaltecidas pela elite alagoana. Certa vez, escreveu um livro, no entanto, foi recusado 5 vezes, ela desistiu de publicá-lo. Quando ainda estudava era uma aluna calada e antipática.

Certo dia, estava escrevendo uma poesia, decidiu mostrar para o professor de português, ele elogiou, ficou lépida, mas ao ir na sala dos professores, mostrar outra poesia, viu o mesmo comentando com uma senhora desconhecida:

— Esses alunos leem uma poesia num dia, no outro viram poetas. Coitados somos nós os professores que temos que ler esses talentos terrificantes.

No primeiro momento ela chorou, depois nunca mais escreveu poesia, o livro que anos depois escreveria seria sobre cultura alagoana, sendo recusado cinco vezes.

Depois de terminar o ensino médio foi morar em Córdova, na Argentina. Formou-se em Pedagogia. Estudou na Universidade de San Andrés, na Argentina. Gostaria de ter sido escritora, no entanto, toda vez lembrava da fala serena e a ironia do professor de português.

Atualmente, vive em Maceió, Alagoas. Sustenta o irmão, estudante de Letras em Floevile, decidiu parar de tomar os antidepressivos. A parada repentina dos antidepressivos foi realizado por ela mesma, pois descobriu um câncer de cólon, queria sentir muita tristeza, culpava-se por não ter sido uma escritora, perdera tempo com o professor de português. Estava morta há anos, sua covardia movia lentamente para o arreio dos impedidos. Não contaria sua doença para ninguém, tampouco faria tratamento, não há sentido em brincar com a velocidade da morte. Embebedou-se como nunca, e escrevera uma carta ao irmão.


Não fui muito feliz, porém estou satisfeita com o anoitecer de hoje. Quando perdemos tempo com a vida, ganhamos com a morte. Sentimentos são estranhos, nunca neles acreditei. Sempre soube que todos sentiam o mundo diferente, e ainda assim penso. Seja feliz, Daleno. Não perca tempo com intrigas, nós somos bactérias nesse extenso universo. E o mesmo tecido que são feitos os lençóis, nós podemos costurar nossos sonhos.

Bárbara Braville


A morte não é um tabu, nunca fora, foi sempre o melhor jeito de ir, não podemos ficar até tarde nessa festa, outrora chamada de vida. Sua última noite esteve mais consumida do que seus longos anos de vida. No terceiro dia de sua morte, lhe encontraram deitada em sua cama, ninguém poderia supor que estavam diante de uma mulher que viveu dois segundos antes de morrer. Daleno veio de Floevile, para ver sua falecida irmã. E como a vida não depende de nós, tudo ainda o mesmo continuou.

Daleno escreveu uma carta para Clarissa, sua ex- esposa, dizendo seus ânimos e câmbios.


Nunca pensei que perderia Bárbara, nem nos piores pesadelos. E soube há pouco que estava com câncer, não pude despedir-me. Em sua última carta, observei um tom estranho, pensei que era um estranho conselho de irmã para irmão. Lembro-me que quando crianças ela ficava horas escrevendo na máquina de escrever do tio Henrique, certo dia, chegara em casa triste, depois nunca mais escrevera poesias, salvo um livro álgido de cultura alagoana. Hoje, na casa dela, encontrei uma poesia bem antiga, de sua autoria, não sei o motivo de tê-la guardado. Estava escrito:

             Escadas da paz
             
             Nas terras de meus ancestrais 
             Não houve educação 
             Hoje não leem
             E vivem como um cão

             Na terra do meu avô  livros 
             eram caros
             Hoje caro é a ignorância
             contidas em seus pratos

             P(e)dimos 
             A(m)or e
             Z(e)lo
 
             Um dia o muro cairá
             A xenofobia morrerá
             nos braços serenos
             de um povo acolhedor

             F(u)ndamental é
             O(l)har paro o
             M(u)ndo e
             E(s)perançar

             Não importa saber 
             quem irá na Guerra fria
             vencer

             O século XX esgota-se
             E o XXI será só paz
             Não existirá guerra 
             Somente acordo de paz 



Ao XXI  meu abraço
      criaremos um  mundo 
                  de harmonia
                       venceremos o medo
                                  os obuses
                                       os aviões sumirão
                                           E cantará somente o sabiá     

Tenho certeza que Bárbara seria uma excelente poeta, infelizmente não concluiu esse sonho. Essa poesia fora escrita em 1984, o muro de Berlim era inspiração de poetas e sonhadores da paz. O professor de português na época deve ter ficado muito alegre, ela com certeza mostrou a ele. Ela deixará saudade. Até logo, Clarissa! Espero encontrar Julieta e Ulisses, meus filhos. Um abraço para todos vocês

Daleno Braville


A vida não depende de nós, todavia, dela dependemos. Estamos de passagem, morreremos e seremos esquecidos. Mas ainda hoje vivemos, há sangue em nossas veias, batalhas entre células e bactérias em nosso corpo. Carregamos à miséria e à esperança de nossos ancestrais, aqueles tolos. Ainda há o que fazermos, temos que lutar, mesmo sabendo, que nosso sangue tramitará no solo de cadáveres e atormentados. Assim os seres vivem, uns temendo a morte, outros vivendo intensamente em vida. Um dia tudo morre, nem mesmos as estrelas escapam desse infortúnio. Desejo morte para todos, morte, no sentindo de, viva que o tempo corre.

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