A rendição

Há pessoas que vivem pelo próximo, às vezes esquecendo-se de viver para si. Outras são ainda mais radicais e existem exclusivamente para atender aos outros, acreditando que cooperam para o surgimento de um mundo tolerável.

A mulher que venho falar têm características contrárias, ama somente a si, sentimento exacerbado, descobriu nela uma companhia satisfatória, excedendo a ternura.

Antes de tudo, seu amor pelo mundo não existia, odiava esse lugar, detestava os preceitos de beleza presente. Estudou direito, e exercia papel como advogada criminalista. Defendia assassinos, concedia à eles, novamente a liberdade, e sequer preocupava-se ao fato deles conceberem novos crimes. Dizia ser responsável pela ética, não a aplicação da mesma, ou seja, era conivente com o contrário da ética.

Sorrisos são trocados por cumprimentos, favores à obrigações, lealdade à méritos processuais. Não foi (durante a juventude) rica, tampouco esteve às margens da burguesia. Vivera boa parte de sua vida com seu avô, numa casa simples, em um bairro de periferia. Ao formar-se em direito, na semana anterior o avô havia falecido; felicidade nunca esteve em seu cardápio. Defendia os maiores assassinos e sujeitos aos quais não tinha sequer um pingo de tristeza.

Estava habituada com crimes hediondos, e o pior do ser humano. Entrava e saia das maiores desgraças feitas pelo homem; o seu olhar fundo, seu cabelo grisalho, seu corpo reto e firme, suas mãos delicadas, que segura extensas pastas; sua fala dirigente, suas roupas seculares, sua pele clara, seus olhos castanhos, acompanhavam cenas de crimes aterradoras; não chorava, descobrimos que chorar é volver-se no íntimo, e esta mulher não tinha intimidade com seu próprio corpo.

Possuía uma casa na Argentina, na cidade de Bariloche; um apartamento no Peru, em Cusco; três propriedades no México; e vivia no condomínio brasileiro Gerlies, em Osasco, São paulo. Suas rendas viam de seu emprego como advogada criminalista, e aliás, conhecida pela notoriedade de casos bárbaros em que atuava. Ganhou destaque pela soltura de vários criminosos no país.


A mente e o Machado

Certa vez, defendeu um criminoso que assassinou a machadada sua esposa, em seguida pôs o cachorro dela, um poodle de porte pequeno, dentro do liquidificador, o animal ficou irreconhecível. Quando ele narrou os fatos, sua advogada ( já citada) simplesmente declarou:

— Olha, vou defendê-lo, todavia o serviço vai ser custoso, pois vejo esse processo rendendo vários desdobramentos.

— Dinheiro não falta, tenho o suficiente guardado — disse o homem naturalmente.

— Pelas circunstâncias do seu delito, acho melhor nós alegarmos um desequilíbrio mental. Assim, talvez consiga uma pena menor.

— Mas não sou doido, apenas matei uma vagabunda e um cachorro desgraçado. Somente destempero, mas eles mereceram — asseverou com descontentamento.

— Bem, caso seguirmos o protocolo penal à risca, no final, o resultado poderá ser muito desfavorável.

Acabou que no final ele concordou, passou por desequilibrado mental, ela falsificou laudos com ajuda de médicos, que aliás, no dia do julgamento, declararam que o réu sofria de fortes delírios; logo, conseguiu uma pena de 9 anos em um hospital psiquiátrico, entretanto cumpriu apenas 4 anos, alegando problemas cardiovasculares, ele retornou a sociedade. Não tardou muito e mais inocentes foram mortos por ele, matou, estuprou e torturou dezenas de indivíduos. E no final, temendo a prisão, ele procurou sua advogada, e ela o aconselhou a fugir do país.

Não é somente esse fato que prova seu desamor pela humanidade, pois houve outros atos em que ela expôs sua antipatia pelo mundo. Tornou-se fria, não deixava nenhum sentimento incomodá-la. Defendia criminosos que os restantes dos advogados ficavam temerosos em advogá-los, como psicopatas, nazistas e bárbaros políticos sanguinários. Fez fortuna defendendo essas pessoas, ela dizia que advogava apenas pelo dinheiro, mas no fundo ela sabia que desejava o mal de todos, que iriam conviver com esses assassinos novamente.


O Nazista de Bogotá

O cenário mundial informa o fato de um nazista colombiano, conhecido pelo nome de Javid, estar sendo sentenciado por crimes que somam 350 anos. Todavia, os mais experientes advogados do seu país negam sua defesa. E ele estaria em busca de um advogado brilhante, então seus intercessores dizem ao seu patrão que há uma influente advogada no Brasil, o fato dela ser mulher o incomoda, porém ele busca sua ajuda. Ela então vai à Bogotá fazer sua defesa.

— Eu sei que é mulher, mas faça o favor de não ficar na cozinha enquanto tiver estudando meu caso — afirmou desconfiado.

— Senhor, sei de suas convicções, e respeito suas resoluções, contudo, devemos ter uma relação amistosa, caso contrário, ficará difícil sua liberdade.

— Tudo bem, moça, vou tentar — diz o nazista

— Uma correção, não quero ser referida por moça, doutora está de bom agrado.

— Entendo — respondeu ao relento.

Ela fez sua defesa, tentou ao máximo diminuir suas penas, este não queria alegar doença mental, pois sujaria suas convicções; o julgamento sentencia ao cumprimento de 98 anos de prisão, uma diminuição de 252 anos na pena inicial, com bom comportamento ele conseguiria sair em 55 anos, no entanto, conhecia influentes políticos, e tinha fotos com eles, o que acarretaria prejuízos à imagens desses políticos colombianos, então, usando desse artifício, ela torna-se uma ponte entre os políticos de Bogotá e o Judiciário, a pressão de políticos sobre a justiça origina o veredito final, uma pena de 20 anos, e com bom comportamento poderia cumprir apenas 8 anos. A notícia foi a manchete de vários jornais pelo mundo. O jornal Demorney Time publica uma matéria.

Homem nazista de Bogotá enfrentará 20 anos de prisão; sentença inicial era de 350 anos Sexta-feira, 10 de novembro de 2015

O homem de pele clara, cabelos escuros, conhecido em seus país como Javid de Nertorid, já foi vereador, e em 1981, foi candidato ao cargo de Senador, possui uma das maiores fazendas da Colômbia, além de possuir extensos latifúndios no Brasil, Peru, Argentina e Venezuela. Desde jovem é seduzido pelos ideais nefastos do Nazismo; no ano de 1996 matou o vizinho homossexual, mas foi inocentado; em 2003 incendia uma fazenda de judeus na Colômbia, sentenciado a 2 anos, entretanto converte em multas; no ano de 2009 mandou assassinar líderes contrários à leis que beneficiariam os latifundiários no seu país, entre os mortos estão Jovareis Peres, ex-senador colombiano, Marelilda Levers, assessora da juíza Neolinda Bolluair e Frederico Les neuves, político e filantropo em várias regiões da Colômbia. Este homem teve sua pena inicial estimada em 350 anos, os processos foram lentos, devido a rejeição dos advogados de seu país; buscando um advogado excepcional, encontra Betânia Vrevolit de Pascual, advogada brasileira, conhecida pelos notáveis crimes em que advoga, sendo considerada uma causídica que não julga com o coração. É responsável pela diminuição de 252 de prisão do nazista. Juristas ouvidos pelo Dermoney Time, reiteraram que dos 20 anos poderão ser cumpridos apenas 8 anos, caso mantenha bom comportamento . Javid é empresário, tem uma rede de atacado em Bogotá, sua fortuna está estimada em 123 milhões de dólares, ademais, destaca-se que detém terras em vários países na América Latina, sendo que sua maior terra, localizada na Venezuela, está avaliada em 85 milhões de dólares, todavia sua mente pragmática lhe rendeu uma vida miserável e infeliz, sua mulher o abandonou e seus filhos o rejeitam, mas não impediu que continuasse defendendo seus ideais terrificantes. Infelizmente, a justiça colombiana facilitou sua vida, uma vez que o mesmo é um “Poderoso Homem da terra”, expressão proferida pelos seus contíguos ao lhe referirem.

Demorney Time/ 2015 — Tópicos mundiais


Ao diminuir a pena de 350 anos do nazista colombiano, voltou ao Brasil com o dever cumprido, novos casos lhe aguardam, no aeroporto sofreu protestos, sua imagem estava vinculada na imprensa mundial, como uma mulher de lábia e voz firme, todavia libertava as mentes doentias, logo a sociedade repelia sua presença. Recebeu convite para assumir um dos maiores escritórios de advocacia do Brasil, recusou, alegando que não gostaria de estar presa ao escritório. Entretanto, os meses seguintes seriam difíceis, pois a imprensa brasileira evidenciava a mulher mais influente em casos jurídicos do país, chegou ao ponto de uma estudante de psicologia fazer um mestrado sobre a mente dela. Os dias foram passando, e seu nome gradualmente diminuía nos noticiários, e casos não paravam de aparecer sobre sua mesa. Agora, escolheria qual seria mais lucrativo. Estava muito pensativa nesses dias, todos estavam contra ela, sua imagem na sociedade estava arranhada, nunca ligou para a consciência, mas o que diziam dela, poderia ser o mesmo que sua consciência pensa. Então, marcou uma sessão com um psicólogo, relutou muito, entretanto foi ao encontro dele. Andou conflituosa até o destino final. Não queria ser classificada, tão pouco que alguém adentre seu labirinto psicológico. Porém, chegou ao consultório, e o homem que lhe atendeu perguntou:

— Olá, o que leva você aqui?

— Primeiramente, o fato de psicólogos estudarem a mente humana, assim conseguirem resolver problemas, que por vezes não dispomos.

— Sim, compreendo, nossa conversa será sigilosa, às sessões duram em torno de 50 minutos.

— Não sinto nada —, disse calmamente

— Você pensa que algo lhe levou a isso?

Ela travou, seu olhar ficou perdido, nem nos piores julgamentos ela demonstrava fraqueza. Olhava intensamente para dentro, mas a impressão é que relutava para olhar para fora. Ela se levanta, diz que não precisa de psicólogos, e saí antes de ouvir qualquer frase do terapeuta. Quer chegar em casa, dormir e tirar umas boas férias do trabalho. Mas, sua consciência foi acordada. E nem ela sabia as consequências desse fato.


O Grito

Todos os anestesiados de emoções uma hora correm o risco de experimentar o grito. Não desejo o grito nem para o meu pior inimigo. Ele marca a última tentativa da consciência sobrepor-se na mente do indivíduo, nem mesmo a tristeza o supera, pois o grito é a junção da dor, da tristeza, da raiva, da culpa, do ódio, da loucura, da epifania e do horror, e nela, pela primeira vez, ouvia o grito, ao ouvi-lo, geralmente os indivíduos, em sua maioria, pensam que é um barulho vindo de fora, no início, fechou as janelas de seu enorme condomínio, porém ainda o berro continuava. Tomou medicamentos, entretanto o aumentou. E de repente, toma a consciência que o grito é dela. Ela estava gritando. E o grito não perdoa, nós o devemos perdoar. Começou a passar na sua mente os casos mais difíceis que ela enfrentou, uma voz acompanhava o grito, dizendo que ela libertou pessoas que não estavam redimidas. O grito fazia de tudo para ela gritar. Há registros em que uma vez um homem gritou para sempre. Seria tarde para ela?


Redenção

Novamente foi ao psicólogo, e disse:

— Desculpa pela inconveniência da semana passada.

— Tudo tem seu tempo, quando quiser manifestar suas emoções, saiba que não serão julgadas por mim.

— Sim, entendo.

— Você deseja compartilhar algo? perguntou pacientemente.

Ela sabia que não tinha muito tempo, o grito anseia por redenção, e será nessa sessão que ela buscará redenção e rendição. Ao salvar tantos criminosos, o grito de cada alma ecoada por aqueles indivíduos atormentados mesclava ao seu próprio grito. Ela jamais acreditou em redenção. Sempre soube que o sujeito mais afortunado seria o mais perdoado pela sociedade. Construiu carreira libertando pessoas, que pagavam bem, por eles, ela mentiu, enganou, e concedeu-lhes a liberdade. Mas e a liberdade da alma? Eles não tinham, ela não tinha, todos estavam presos dentro de seus próprios gritos de horrores. Novamente, o psicólogo pergunta:

— Quer compartilhar algo?

— Sim — disse aos prantos

E continuou:

— Bem… Nunca soube o quê me levou a estudar Direito. Na verdade, uma vez, quando jovem, meu tio foi condenado a morte, em um crime, que todos sabiam que ele não foi responsável. Eu, pela primeira vez, fiquei furiosa, aqueles agentes o mataram, eu passei fome, e esperando esse sentimento retroceder, ele aumentou. A morte dele não foi o que a lei determinava, não há pena de morte, contudo, não foi o suficiente, para que um dia quando eu e ele íamos a padaria, um carro escuro, abrisse lentamente o vidro, depois os barulhos de tiros soavam nos meus ouvidos, e aliás, toda vez que o juiz bate o martelo de cada julgamento eu lembro-me do som produzido pela arma. Nunca havia visto tanto sangue. Ele morreu na minha frente, o sangue dele misturava entre minhas lágrimas. E depois, nunca mais chorei. Outra vez, minha mãe roubou para nos alimentar, havia somente eu, ela e meu avô, mas ela foi presa, ficou 3 anos detida, passamos muitas necessidades sem ela, no dia da sua soltura, quando fui recebê-la, eu novamente encontrei-me acreditando na esperança, esperei 2 horas o portão abrir, e quando foi aberto, de lá saiu o caixão da minha mãe. Fui para casa aos berros, o meu avô esperava-me com um sorriso, porém quando lhe disse que sua filha havia morrido, ele infartou, fiquei dividida entre o hospital e o velório da minha mãe. Todavia, ele se recuperou, e depois tive que trabalhar, chegando em casa às 22 horas, em seguida estudar para as provas. Estudei muito, depois de muitas tentativas conseguir passar no vestibular, estudei direito, mas semanas antes da formatura meu avô faleceu, então não sobrou ninguém pra compartilhar meus feitos.

— E depois, como seguiu a vida? perguntou o psicólogo

— Eu sempre quis ter uma inspiração, todavia, eu sempre me rebaixava à elas, logo tornei-me, penso eu, minha maior inspiração. Libertei os maiores delinquentes, constatei que o ser humana tem tendência para o mal. E costurei minha vida, libertando os miseráveis. Agora, fortalecida pelos anos, sinto um grito gritando dentro dos berros de minha alma.

Não sei o que ela viu no psicólogo, mas disse todas suas verdades, todos os seus medos, compartilho uma frase que o psicólogo disse a ela, quando saiu: “Quando não gritamos para fora, é porque já estamos berrando por dentro.”


Rendição

Temos por mania insistirmos em acreditar que somos fracos quando compartilhamos o que sentimos. Ela, Betânia, fora pela metade da vida uma mulher fechada. Libertava os seres que nada temiam.

Criou fortuna, elaborou seu próprio destino, acreditou ser forte, e acabou quase sendo consumida pelo grito. Depois de sair do psicólogo, ela demorou acreditar em que havia falado para alguém sobre seus problemas; no dia seguinte, acordou sem o grito, com a sensação de paz maravilhosa.

Ao ligar a televisão, soube a notícia que o homem do machado havia dizimado uma família inteira, sobrando apenas uma menina chamada Raquel, ela sentiu uma culpa que destruiu seu sentimento de paz, entretanto não mais seria escravizada pelos próprios erros, decidiu criar um instituto em que ajudaria essas vítimas de seus ex- clientes, enganou o homem do machado, e conseguiu sua prisão, aos poucos reparava seus erros.

Ajudou Raquel estudar Direito. E entendeu o conceito de Justiça. Ela vale para todos. E todos para ela valem; valem a pena. Todos devem ter o direito de um recomeço, até mesmo o homem do machado.

Sempre é difícil acreditar nos outros, às vezes circunstâncias nos levam a não acreditar se quer em nós. E você acredita em recomeço? O fim esbarra com o início? Eu sei que não existe fim para aqueles que sempre recomeçam.

2 comentários em “A rendição

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