Às margens

Um menino deveria ser poupado das dores da vida. É intolerável saber que sofremos tanto ao formamos quem somos, alguém poderia deleitar sobre nós um pingo de piedade. Caso um dia estivesse na presença de Deus, não relutaria em pedir menos sofrimentos aos jovens, pedindo-lhe que apaguem todas nossas imperfeições. Não entendo como há sofredores e ao mesmo tempo pessoas felizes. O mundo é uma mistura insuportável aos meus olhos, não somente ao meu, mas também de alguém que tive o prazer de conhecer na minha infância, o Elias.

Todos na escola sabiam que Elias sofria bullying, até mesmo os professores, de vez em quando eles saíam em sua defesa, porém ele não contava com a segurança do resto da turma, ainda menos da escola.

Uma vez, os meninos, lembro-me de Fernando, Milton e Plínio o convenceram que Estela, uma garota da turma, estava apaixonado por ele, um sorriso encantador transbordava sua alma. Como dizer para ele que era mentira, eu somente era um aluno de plano de fundo, torcia para o sinal bater mais cedo e eu saí, nem com os professores eu tinha afinidade, e outra: ele sentava longe da minha carteira.

Certo dia não encontrei Elias na escola, possivelmente tivera algum imprevisto, resumi eu. Entretanto, os risos enfadonhos vindos de Plínio e o resto da turma aguçava um resquício de suspeita. Notei que Estela estava meio aflita, em princípio não liguei os sinais. Então, quando a professora Elizabeth fez a chamada, no exato momento em que o nome de Elias foi pronunciado, risos sobejos eram manifestados na sala.

Ao irmos para o recreio perguntei ao meu colega de turma o que havia acontecido que todos estavam de sussurros com o nome de Elias, e respondera:

— Tu tá dormindo, cara… Elias tomou um tabefe de Estela, você acredita que ele achou que ela tava na dele.

— Mas o que ele fez para receber um tapa? indaguei ao ouvir o relato.

— Ele leu um poema, tem que ser muito tapado pra fazer uma coisa dessa. E você não sabe da maior: leu na frente das amigas dela… Agora eu sei quanta burrice existe no mundo.

O sinal interrompe a conversa constrangedora. Confesso que no momento sorrir ao ouvir o relato, porém, depois percebi que a situação era uma afoiteza. Dias depois ele frequentava normalmente a escola, todos haviam aparentemente esquecido do assunto, mas no rosto dele evidenciava o sofrimento de uma desilusão.

O semestre escolar termina, logo os professores citam nossas notas, e a nota dele era a maior, suscitando inveja na maioria (inclusive eu). Na sua face não demonstrava algum indício de vaidade, todavia é difícil ler as expressões de seu misterioso rosto. Os colegas liam em seu rosto um deboche; na verdade, eles liam o que queriam ler. O garoto não era presunçoso.

Ficamos em casa por um mês, devido ao recesso escolar. Nas férias fui viajar ao Maranhão, caso aconteceu alguma desventura neste período com Elias eu não sei. Não tardou muito e estávamos de volta ao colégio. Todos estavam sorridente com a volta às aulas. E como de costume presencio o Plínio arquitetando planos contra todos.

Plínio, o maior desafeto de Elias, continha cabelos loiros enrolados, sobrancelhas breves, sorrisos demasiados, vivia com os tios, que inclusive possuíam uma padaria, sua mãe faleceu em um acidente automobilístico, o pai se suicidou na sua frente, quando ainda tinha 4 anos. Seu semblante não demonstrava qualquer sofrimento, entretanto a raiva moldava seu rosto impecavelmente. O primeiro dia de aula foi intenso, alguém jogou fezes na bolsa de Elias, uma tempestade terrificante caia neste dia, talvez uma mensagem divina que o garoto teria um ano difícil pela frente. E fatos ao decorrer dos meses seguintes tornaria sua vida intolerável.


Estela possuía um diário cor de rosa, bem igual aos de hoje em dia, depois do recreio ela reparou que ele havia sumido de suas coisas, logo instalava-se um debate na sala de aula para o responsável entregá-lo, a estressada professora Elizabeth comentou em tom alto que ninguém sairia até o aparecimento do diário, mas o responsável não declarou o furto. O diretor Joaquim é chamado, em seguida mandou que os alunos retirassem todos os materiais da mochila. E para a surpresa: estava na bolsa de Elias, acusações exacerbadas foram proferidas de ambos os lados, no início pensei que era porque ele gostava dela, a professora em todos seus anos de magistério nunca viu tamanha transgressão de um aluno exemplar. Entretanto, os superiores consideraram o ocorrido como um caso isolado, levando em conta o alto empenho do aluno. Hoje, eu sei que não foi ele, mas na época nós o condenamos.

Esse acontecimento marcou os meninos que por um tempo não fizeram mais brincadeiras sádicas com o garoto, meses depois mais um final de semestre se aproximava, logo teríamos mais um mês em casa, então os meninos sugerem a última brincadeira com o Elias. Mas ele não iria acreditar em ninguém, pois todos o ridicularizam, menos eu. Plínio disse que se eu entrasse na brincadeira poderia ir à festa em sua casa, pensei um pouco, e considerei que de tantas brincadeiras esta última não faria mal. Ele disse-me o que eu teria que falar, concordei e fui ao pátio. Encontrei-lhe sentando, de forma pensativa, com um caderno na mão, escrevendo poesias. Olhei para os seus olhos, e com insinceridade, diz:

— Tenho uma coisa para te falar.

— Até você quer me enganar, Jorge — respondeu de forma tristonha.

— Nunca lhe preguei mentiras, por que faria agora?

— Sim, eu sei — replica em um tom mais ameno.

É que… travei no momento, mas continuei.

— Estela vai te encontrar no Rio Baluarte, hoje às 14 horas.

O Rio Baluarte fica no meio da floresta da cidade, atraí muitos biólogos pela diversidade da fauna e a flora existente na região. E também temido pela sua forte correnteza. Ao ouvir minha mentira, Elias respondeu:

— Tudo bem, Jorge, eu vou sim, mas antes vou confirmar com ela.

— Ela tem vergonha das amigas, elas vão implicar, cara.

Tudo bem, acredito em você, sei que é verdadeiro.

Esta última frase eu levei para a vida inteira, trair a confiança da pessoa que mais fora traída. Não fazia essa brincadeira por diversão, apenas para ir à festa na casa de Plínio, somente.

O tempo estava lindo, o sol suscitava nossas alegrias de meninos. Íamos gravar tudo com a câmera do avô de Roberto. Em princípio achei tudo isso exagerado, Plínio demonstrava felicidade.

E às 13h50, Elias aproxima-se às margens do rio, estava todo arrumado, com uma roupa invejável, e com um sorriso de um poeta, ouvindo sua poesia gritar no papel. Olha para todos os lados em busca de Estela, esta nem sabia da brincadeira. Estava visivelmente atordoado, a esperança caiu no colo de um qualquer, não estava mais com ele.

Quando nos cansamos de ficarmos olhando suas esgotadas esperanças fluindo no seu melancólico rosto, saímos rindo, e Plínio o inferiorizou. Pela primeira vez o ódio era maior que seu coração, na sua face apequenada por nós, ele retruca com um soco na boca de Plíneo, com certeza o soco demonstra sua dignidade, seu esgotamento, sua fúria, a agressividade fora tanto que o sangue de Plíneo galgou na terra, e o mesmo olhou enraivecido para Elias, agora para ele o garoto significa todos os seus problemas, o carro que matou sua mãe, o tiro que levou seu pai, os castigos vindos dos seus tios, seu sorriso debochando da vida tornou-se uma expressão de fúria, de tristeza e de tormento.

A briga dos dois mancharia para sempre o solo da floresta, fez o vento transgredir-se, era a briga que alimenta a guerra, um enfrentamento em que o bem são os dois lados, e o mal também; estavam indiretamente encarnando a discussão dos heróis de um povo, voltavam aos tempos dos homens bárbaros, onde o derrotado era morto e feito de símbolo; eles interpretavam o símbolo da inocência ferida. Nós tentamos separar a briga, contudo não tivemos sucesso, os dois se agarraram no chão e Plínio empurra Elias que cai no Rio Baluarte, todos ficam desesperados, haviam apenas meninos; tentando reparar o erro, Plíneo pega uma madeira estendida às margens do rio e tenta fazer com que Elias agarre a madeira, todavia a situação piorou ainda mais, pois não resistindo a pressão do garoto no rio, acaba que os dois estavam agora na água. Fomos em busca de uma pessoa para ajudar, no meio da trilha encontramos um pescador, viemos correndo com ele, ao chegarmos não havia ninguém no rio. Os dois não eram mais visíveis. Eu saí correndo às margens do rio pedindo perdão, mas ninguém me respondeu. Em instantes a polícia e os agentes de salvamento chegaram, os pais de Elias estavam desesperados, os tios de Plíneo encontravam-se visivelmente estáveis. E o tempo foi passando e a esperança foi diminuindo. Não fiquei muito tempo, fui para casa.

Na escola foram feitas orações e mensagens aos garotos. Os professores sentiam-se culpados, pois nunca dispuseram em ajudar Elias, tampouco acalmar a relação pouco amistosa que os garotos e Plínio tinham com o menino. Eles deixaram os ecos de seus nomes, os remorsos de suas presenças, a saudade invocada pelos seus sorrisos, o espírito chamativo de crianças prontas à vida. Acabou tudo da pior forma, no pior momento, nas piores palavras. O tempo amenizou o sofrimento, todavia nada fora como antes. Às vezes penso que eu poderia mudar o destino dos dois, talvez desafiando à correnteza, ninguém viu os últimos momentos dos dois, não sei se houve um abraço, um pedido de perdão, uma gota de lágrima caindo nas milhões de outras gotas do rio. Tenho certeza que não suportaria viver sendo um dos expectadores da morte deles, na minha mente eu crio os últimos momentos, não há gritos desesperados por socorro, ouço apenas os dois lábios dizendo perdão, os dois braços formando um abraço, os últimos fôlegos sendo para uma oração, e o rio além de sufocá-los, apenas os abraça para uma morte indolor.

Se sinto culpa? Eu sei que era um menino, não havia experiências que pudesse comparar a consequência de um delito. Não vejo mais os outros meninos, semana que vem vou aposentar-me, trabalhei durante toda minha vida salvando pessoas, tornei-me bombeiro, certo dia salvei um grupo de crianças de um afogamento, naquele dia eu senti Deus, ele me dera uma oportunidade de fazer o certo. A finalidade dos meus amigos eu não sei, depois do ensino médio não mais os vi. Espero que Deus tenha concedido uma ocasião em que eles pudessem fazer o correto.

Sinto saudades dos dois, eles marcaram minha vida, minha profissão, quanto mais grave era o salvamento mais lembrava-me dos dois. Suas mortes marcaram o rio, assinaram o vento, fizera quem eu sou. Eu vivo pelos dois, às vezes melancólico, de vez em quando debochado.

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