Cascas do tempo

Era tarde demais. Não era mais possível. Apenas o chora fazia sinal de algum sentimento escondido na mais profunda camada de sua desesperançosa alma. O sítio em que vivia, apenas havia um animal, seu pobre corpo deitado na cama insólita, entre um trago e uma pele cortada pela navalha de seu dia a dia; choros e gritarias são misturados entre estilhaços da janela quebrada e o seu passado.

O que acontece quando um homem bom torna-se mal? Fabulava perguntas, como quem soubesse as respostas. Nunca soube responder, pois nunca engendrou perguntas para serem fielmente respondidas. Somente havia o vazio de sua alma. E sua lágrima incolor, uma subalterna fraqueza que dilacera o seu eu.

Acabaria ele com sua dor, revivendo um amor. Não. Amor não é um refúgio de dor, amor é compartilhar defeitos, erros, esperança, benevolência. Ao tratarmos o amor como um refúgio, acabamos por criar uma prisão em que eu prendo o meu parceiro e a mim. Sua vida foi assim. Muitas mulheres, e creio que muitas delas ele nem soube o nome. Amar é tornar-se parte, não o todo, não tudo, apenas parte do tudo.

O tempo ensinou-lhe que nem tudo é possível, ainda mais quando esperamos sentados algo se resolver. Não é ignorante, pelo contrário, professor de História, Teólogo, e entre uma mulher e outra poeta. Ao analisar contextos históricos não derrama uma lágrima, ao criar um poema ligava-se ao sentimento de dor. Um poema é triste, uma tragédia histórica, simplesmente letras que evidenciam um período. Não tratava com a mesma similaridade um título de poema ao de uma guerra. Era livre para chorar quando fosse a hora, mas quem choraria por uma época que já esgotou-se.

Nos campos de sentir, sempre foi visita inóspita. O próximo triste é apenas um fracassado, um poeta triste, nossa, um gênio incompreendido. Sempre soube separar o joio do trigo. Hoje, ele é maleável como uma massa, que apanha do padeiro às 3 horas da manhã. Ele toma uma surra da vida, em seguida desconta nos outros, quando não em Deus.

Mas, caso iremos falar de seu passado, que falemos da parte que eu lhe entendo. Sentava-se na primeira carteira. Apanhava diariamente dos colegas de turma, dos pais, dos tios, dos primos, dos vizinhos. Quando ganhou um cachorro, viu o mesmo preferir o primo brincalhão e sorridente, que sempre com petiscos escondidos disputava o amar do cão. Chorava muito, por isso, tornou-se intolerante aos próprios sentimentos. Entretanto, buscava abrigo nos livros de história, vendo ele que o mundo fez-se sempre um caos. Guerras sempre existiram. E aliás, períodos de paz eram mesmos tão pacíficos como pensamos?

Como disse, além de sempre viver no passado, e nunca evoluir, fez disso uma profissão, ao historiar ele redireciona os tempos de hoje aos tempos de ontem. Tem mais compaixão pelos povos vítimas de guerras anteriores aos habitantes de seu país que morrem assassinados pela origem. O único sentimento ao qual é cultivado é a culpa. Não perdoa, considera-se o juiz na sua vida e de seus contíguos. Vive sempre no viver de ontem. Nas culpas antigas. Nas tempestades de verões passados.

Atualmente, vive infeliz, amargurado e muito conectado ao passado. Seja nos livros de histórias, ou seja no seu. Leciona sem muita paciência, porém cobra alto pelo tempo em sala de aula. Tudo é o tempo. Ele vive tempos. Mas jamais aproveita para viver o agora, que justo agora virou passado; e passado fica para trás, e o presente um dia torna-se passado, e o futuro transforma-se em presente. Não sei em qual tempo ele verá isso.

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