Vida intrujada

Os olhos do senhor Geraldo se entristecem ao verem o cemitério da cidade com uma imagem pitoresca de um balburdio qualquer. Acabara de completar 91 anos e o cemitério é uma casa onde o abrigará em qualquer momento. A morte não era um tabu para ele, não por ser velho, mas por entender a vida tão resumidamente que a morte seria o ápice da sabedoria humana.

Todos os dias ia para em frente o cemitério,  sentava-se, e encostava sua cabeça no muro  branco e descascado do vetusto lugar. Lá viajava entre seus lamentos, orgulhos e promiscuidade. Às vezes surgia tempo para uma boa literatura. Mas engana-se quem  considere que o ancião deseje tão intensamente o cemitério, que espera calmamente sua hora correr entre seus enrugados dedos. Na verdade, ele não tinha medo da morte, mas não significa que não tenha dúvidas de arrepiar qualquer vivente apaixonado.

Havia em sua mente mil imaginações do lugar. Suas incertezas eram adoravelmente saciadas por respostas que o mesmo criava. Depois da vida o que virá? Saberei que estou morto, ou estarei tão vivo que em minha concepção nunca havia morrido? Haverá testes? Como não saber que já esgotei-se, e aqui, por exemplo é o lugar depois da vida?

Caso dissesse que ele amou viver, estaria ocultando preciosas verdades. Amou os momentos. A mulher o abandonara. Os filhos o deixaram, mesmo depois de toda a dedicação com os mesmos. Os vizinhos o invejava, mas uma inveja de dizer, que quem era o invejado eram eles. Na sua adolescência apanhava dos meninos da rua. Porém nunca ousou a abandonar a vida definitivamente, espera pacientemente sua morte, como alguém que espera um técnico instalar o Wi-fi.

Nesse exato momento está em frente ao cemitério, uma tarde graciosa, orvalhos balanção ao rasgar do vento. Jovens com o olhar triste passam na rua, alertando que a tediosa vida adulta aproxima-se. Geraldo lê o livro de Sylvia Plath: “Redoma de vidro”. Para ele o livro que trata uma face trágica da vida de uma mulher deprimida, era pura comédia, pois para cada sofrimento íntimo havia uma infinidade de soluções em sua mente; o drama de viver, aos poucos virou extremamente palatável aos seus instintos. Ou seja, ele ama viver, mas morrer não seria o fim, apenas o fim do final da vida. Vida é viver, Morrer é nascer, nascemos para viver e o último nascimento é o morrer. Surgiria novas pérolas em sua mente ao cair da tarde.

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