Transgressões

Eudorita é trabalhadora, sobretudo uma mulher ocupada. Nem mais lembrava-se o que era sair no final de semana. Trabalha como professora de Filosofia, e ensina aos alunos o dom de questionar. Mas ela não era uma mulher questionadora, pelo contrário, aceitava tudo com muita naturalidade, e não é para menos, uma vez que era consumidora ativa de antidepressivos, em um dia mais ou menos, chegava a tomar 6 comprimidos.

Apelidada de dopada pelos colegas professores, tampouco ligava para os deboches alheios. Todos temos nossas fugas, dizia ela. Por isso os antidepressivos são uma fuga de uma realidade massacrante. Quando jovem era animada, todavia ao mesmo tempo impulsiva.

Certa vez, ao completar 16 anos assistiu um lixamento de um gato, que havia mordido nada menos que ela. O gato sobreviveu, mas ainda via nitidamente o gato sangrando em sua frente, ela estava ferida, desorientada, pelo fato de não saber se o gato era vacinado, então naquele momento só pensou nela. E o caso do gato era apenas mais um trauma na sua extensa gaveta.

Agora, com um olhar perdido no tempo, vegetava no próprio pensamento. É muito difícil perdoar alguém que nos prejudicou, no entanto, é ainda mais difícil perdoar quando quem nos prejudicou somos nós mesmos. Havia dias em que se perdoava, outros em que faltava uma linha entre ela e o fim.

Pensando nos pecados, lembrou-se de um acidente com o ex-namorado pegador. Tinha apenas 18 anos na época. O namorado andando inocentemente, não percebeu que estava sendo seguido. Diz o ditado que quem procura acha, pois o que buscava, acabou por encontrar. A traição vista em ângulo distante, rasgava todo o tecido do seu dilacerado coração. Com a cabeça fria ela esperou toda a cena romântica na praça terminar. Em seguida foi tirar satisfação com o namorado, e nervosa começou bater na moça. Mas Paulo Sérgio, o namorado pegador, não deixou a amante apanhar. E então Eudorita começa a bater nele, de repente um carro aproxima-se, no calor da emoção Paulo Sérgio é empurrado, e consequentemente atropelado. Eudorita não viu o carro, sentia-se muito culpada: “Meu Deus, não deixe ele morrer”.

No hospital, agora mais relaxada, pergunta ao médico a situação do ex-namorado. O médico responde:

_ Já adianto que o Paulo Sérgio está bem. No entanto, senhora, tenho uma má notícia: Ele não andará mais.

Eudorita sentiu uma culpa tão grande que desejou voltar atrás, mas era tarde. Paulo Sérgio era jogador no time da cidade, com certeza demoraria muitos anos para perdoa-la. Quando acalmou-se, foi ao encontro do ex-namorado, contou a verdade, foi humilhada, xingada e rebaixada. Depois disso, foi para casa e tentou suicídio. Todavia sobreviveu, e fora internada pela mãe em uma clínica psiquiatra até se recuperar. Alguns dias atrás recebe a notícia que Paulo Sérgio voltou a andar. A culpa foi aliviada, mesmo assim, por tê-la mantido tantos anos dentro de si, ainda ficava as marcas.

Atualmente é uma senhora professora, e bocuda, assim os alunos dizem. Realmente ela não tem papas na língua, ela grita, ela chora, ela xinga, ela berra, contudo os alunos a amam por ela ser assim. Às vezes ela desejava criar uma máquina do tempo e voltar atrás. Vivia somente no passado. Porém ao entrar na sala, abrir os enormes livros, esquecia quem era, naquele instante, apenas questionava, ensinava e filosofava.

Escolheu não se casar, viver feliz, viver só. Havia dias em que não tomava nenhum remédio, ficava deprimida, agitada, mas há dias em que a tristeza é necessária. Se era feliz? Acredita que sim, ela era feliz. Existem inúmeros traumas em sua vida, mas encontrou na Filosofia as incontáveis soluções. Eudorita está indo filosofar, em todos os lugares ela filosofa, pois em todos os lugares há do que se filosofar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s