Flores na sala

Talvez fosse loucura supor que rosas trariam minha felicidade. Elas acabariam por murchar, mostrando assim, a face monstruosa da vida. Pois aos poucos o que era lindo transfiguraria em minha presença. Minha vida não é doce, então não traçaria o mesmo destino para elas.

Ao ir à loja comprei um jarro com flores totalmente plastificado, colocando-o em seguida na sala. Os primeiros dias foram encantadores, minha sala embelezada, e eu com uma felicidade inabalável. Todavia ao passar do tempo, acabei por notar que as flores continuavam com a mesma perfeição, pois eram de plástico, senti-las mortas na sala, mesmo sabendo sua superficialidade. Embora fosse tenebroso saber que elas conservariam aquela aparência por um longo período. Era a mesma coisa que debochar das flores murchas, ou minhas rugas, pois nós sofríamos com o tempo.

Comecei a ter inveja daquelas flores, depois senti-me vulnerável a elas. Logo passei evitá-las na sala, depois nem na sala eu ia mais.

Era dolorido saber que flores como essas jamais sofreriam com a morte. Também era um desafio ao meu estigma, uma vez que o tempo me torturou das piores formas. A velhice era meu destino, o fim minha saída.

Vários medos agarravam o meu coração. E pensei que pessoas “plastificadas” seriam mais felizes. Já eu sou complicadamente emocional. Uma flor morta é como um coração pulsante no lixo. Achei melhor sair de casa, caso contrário enlouqueceria de vez. Poderia jogar o jarro com flores no lixo, porém pensei, ao jogá-las no lixo iria fazer o mesmo que fizeram comigo ao me jogarem nesse mundo cheio de pessoas vivas, e somente eu morta. Eu tenho certeza que não escolheria viver nesse mundo. Pela primeira vez tive pena daquelas flores.

No outro dia, ainda não conseguia entrar na sala. Logo depois, uma enorme culpa invadiu meu coração. Pois abandonei-as na sala. Então, novamente comprei outras flores na loja. Ao colocá-las na sala, corri sem olhar para trás. Outra vez presumi que as flores estavam sozinhas na sala, logo depois comprei outro jarro com mais flores… E assim foi indo. Hoje, minha sala é impenetrável, inúmeros jarros, incalculáveis flores.

Uma suposição surgiu, talvez, quando o criador nos criou queria tanto nossa felicidade que nos colocou com incontáveis seres. O mesmo eu fazia com as flores. Depois de alguns anos mudei-me de casa, e ontem não resisti: comprei outras flores, mas, vivas. Assim minha sala vai ganhando vida, tal como o planeta que a cada dia novos seres nascem.

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