A casca sem o grito

E ao acordamos e não vermos mais os pássaros em sintonia.

E ao acordarmos e sabermos que não choverá mais.

E ao acordamos e notarmos que somos loucos. Pois foi assim que acordei em um dia aparentemente normal para alguns.

O dia anterior fora normal, depois de um dia cansativo como professora de ensino-médio. Algumas provas para corrigir, trabalhos para analisar, nada que não fosse acostumada. Em paralelo ao meu dia, observei a vida de colegas nas redes sociais. E cansei-me de ver o noticiário, não trazia consigo boas notícias.

Minha noite foi branda, calma e silenciosa. Mas a manhã foi antagônica: profunda, grosseira e devastadora. Era um sábado com cara de sábado, uma tristeza fria e serena batia grosseiramente em minha porta. Decidir não abrir, todavia ela possuía uma chave mestra. Bem longe ouvia latidos, pessoas verbalizando e um grito acuado que me assustava: um grito!

Sair descabelada para ouvir de perto o grito. Em minha varanda nada pude ver e ouvir. Contudo, ainda o grito incomodava-me. Em busca de conforto, imaginei que seria um rádio de um vizinho sem noção. Preparei o meu café, novamente fui a varanda e fumei acompanhada de uma harmoniosa música. E o grito me enlouquecia. Nervosa fui até a sala e liguei a televisão. Mas o grito veio comigo. Estaria eu ouvindo coisa? E de repente notei que o grito era meu: o grito que eu escondera, revoltou-se dentro de minha alma.

E o mais chocante: não lembrava da última vez que gritei. Nem mesmo quando perdi meu marido em um acidente automobilístico. A vida não foi justa, e tampouco buscava justiça nela. Aos olhos de todos me formei em Filosofia, conquistei quase tudo e perdi também. Ninguém teve compaixão com meu sucesso nem pouco com meu luto. E se grito é porque estou ferida, e se o grito é interior, é pois aprendi silenciar minha dor externa. E minha alma é surda! O que ouve os gritos hoje é apenas meu corpo cansando sobre roupas caras e uma pele marcada pelos anos.

Poderia deixar o grito me ensurdecer, assim como aconteceu com minha alma, novamente iria ignorar e como consequência padecer sobre bons vinhos e nostalgias que não voltarão mais. A dor era impecável aos meus olhos, aos meus ouvidos era insuportável. E por um instante desejei gritar até a garganta sangrar, todavia sentia medo do prazer que poderia sentir, e talvez nunca mais parasse de berrar. Até o último fio branco, a última lágrima a cair, eu iria consumir gulosamente o grito.

Não poderia mais prender a dor, pois ela desejava a liberdade, ela desejava andar livremente sobre minhas veias, envenenando aos poucos meu coração. O sonho de liberdade a motivara a se libertar da prisão que a pus.

Um dia já tive medo da loucura, hoje a vejo como uma anistia, uma válvula de escape. Invejo profundamente os insanos, minha pousada será um hospício, meus sonhos serão fornecidos por calmantes e remédios psicológicos. E a dor será estuprada pelos meus delírios e alucinações.

Mas não habituo-me em gaiolas, pois então seria uma louca livre, e quem julgasse-me teria o desprezo e a ironia em meu olhar: pois jamais saberiam eles que estavam diante de uma mulher livre de sua mente, de seus pecados, de suas desgraças e de suas vaidades. Ali estaria somente a casca e o olhar, e nada mais, seria surda e incapacitada de ouvir minhas próprias lamúrias.

E se um dia você me ver na rua: não saberá quem está diante de ti, verás apenas minha casca, meus devaneios. Uma mulher normal, leve e que não ouve as lamentações humanas, que é dura, que é seca, que é calma. E que encontrara o melhor jeito de viver em um mundo barulhento.

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