A janela, o lugar e o menino

Manhã linda, sol quente que penetra calmamente em nossas peles. Crianças brincando, vejo rodas e sorrisos tímidos e expressivos. Mas por que um menino olhava tudo o que acontecia na janela? Em uma casa alta, provavelmente uns 5 andares, ele olhava o insólito mundo onde aquelas crianças divertiam-se. Tudo  refletia ser escuridão, culpa e choro na janela de sua alma. Por que viver? Por que sofrer? Será que o mundo é um show de horrores? Perguntas aos quais fazia o menino delirar em seu mundo amargo, frio e inóspito, onde ao entrarmos, iriamos encontrar um poço de lamentações, tristezas, vergonha e medo. Ali  vivia, seu desejo era ir embora, todavia possuía poucas esperanças. E condenara a alma a viver o resto de sua vida presa em um mundo chuvoso e donte. Cadê o amor? Cadê a esperança?

Não mais sabia o que era amor, vida, entreter-se, sol em sua pele machucada. Contudo era especialista em dor, bacharel em culpa, mestre em desesperança, doutor em escuridão. Viver era intolerável. A garotada da rua de longe espelhava os olhos naquele menino, que aparentava não ser triste, porém estranho. No entanto, deixavam ele viver em seu canto, na verdade, ele não vivia em nenhum canto, fora preso no próprio corpo, trancafiado na própria alma, condenado por si ao desespero. Ora, não sabia o por quê de o garoto está tão triste, e isso me incomodava profundamente. Apresentava ser muito jovem, talvez nem fosse adolescente, talvez nem saiba o que é os hormônios te balançarem constantemente.

Sem pedir licença, empurrando a porta de sua alma, eu entrei. O que era aquilo? Quanta dor alguém pudera suportar? Ao andar, encontrei um jardim sem flores, com muitas árvores, muita terra, muitos buracos e tudo escuro. Um jardim sem sol não viverá muito tempo. Como fizera para as flores morrerem? Meus olhos desejavam intensamente ver a luz, o ambiente se mostrou melancólico e desgostoso.

Avisto o menino, estava sentado em suas lamentações, às margens de rios e lagos, que de perto não poderia se medir a profundidade. Sua dor era íntima, sua pele cortada evidenciava seu desespero. Não havia nenhum som, nenhum vento, nenhum cheiro, o lugar se mostrara sombrio aos meus olhos. Na verdade, tudo era confuso, sentia saudade da luz. O que fizera o menino ter intolerância a luz?

Depois de muito andar e conhecer o lugar, a tristeza poderia sucumbir a minha alma, em nenhuma hipótese desejava o mesmo destino. Egoísmo não querer o mesmo caminho, mas não pensava direito. O ambiente roubara minhas percepções de certo ou errado, de lógico ou fantasia. O que eu via era um lugar parado e perdido no tempo, preto e branco, onde não há qualquer movimento, senão um gemido bem retraído de choro, como fundo musical. Não faltavam adjetivos negativos para o ambiente.

Em suas emoções eu mergulhei, e pela primeira vez a escuridão tornou-se normal, a luz me amedrontava, ou a tristeza não deixa-me senti-la. No momento, eu caí como uma folha trocando de estação, mas por ainda sentir-me vivo eu corri. Deixei tudo para trás, o lugar e o menino. Ao sair da alma do garoto, chorei por entender tamanha dor.

E agora, de longe via o menino de bruços na janela, olhando para a garotada brincando na rua. E por um  instante, notei em sua face um sorriso inibido, o lembrando de viver. Ao sair da janela, desceu as longas escadas de sua residência,  e foi para a rua, sentou-se no banco e com notoriedade brincou.

Quando tudo acabou, eu sair, sem destino, e um pouco nostálgico de sentir a alma de outra pessoa infeliz.

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