Um louco e seus centavos

Louco ele se considerava, talvez loucura fosse pouco para ele. Aos 15 anos pediu a mãe para ser internado em um hospício, pois não conseguia controlar os pensamentos. Ao passar dos anos, desenvolveu técnicas para controlar esses devaneios da mente. Decidiu estudar economia, mas abandonou o curso ao decorrer de 2 anos. Não sabia o que queria, tampouco desejava algo para trabalhar o resto da vida. Seus sentimentos o torturava, mal sabia o poder de um sorriso espontâneo pela manhã. Assim que sonhava em seguir algo, logo desistia, ou julgava-se não preparado. E sempre acreditou que era um louco, mas um louco impercebível . Não havia por parte dele o medo da morte, ele achava a ideia de partir fascinante. Na verdade, ele queria nada sentir, pois, a morte lhe cairia bem.

Depois de tantas tentativas frustradas ao tentar seguir uma carreira, desiste, seria livre de uma Universidade. Mas por insistência do primo Agenor, resolve cursar matemática, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), completando o curso – passa no vestibular e leciona em uma importante escola privada no Espírito Santo. O diretor do colégio o chama para uma conversa:

_ Prazer, meu nome é Euclides Rocha, formado em Pedagogia. Por escolha dos pais, sou diretor e, aliás, o mais votado para colocar ordem nessa escola.

_ Eu me chamo Caetano Barbares, nascido na Bahia, criado no Espírito Santo. Espero exercer um bom trabalho — responde ele, com total simplicidade.

_ Quero resultado, Caetano. Caso contrário, desenvolverá seu bom trabalho em outro ambiente.

O diretor com sua prepotência aos olhos dos subalternos que não gostam de ser comandados, emite as regras aos quais Caetano obedecerá.

Caetano era muito dedicado, chegando a chamar atenção pelo seu profissionalismo e timidez ao mesmo tempo – nada mal para alguém que a pouco tempo desejava um manicômio 0km.

Desenvolvia as habilidades dos talentosos alunos em matemática, sendo um pouco ousado e sanando as dúvidas da garotada até em português, história e química. O que irritava profundamente os professores das matérias citadas. Logo, era o professor mais amado, também o mais odiado. Nunca era chamado para as comemorações secretas dos professores. Em contrapartida, ganhava alguns lanches dos alunos sempre quando havia uma festinha.

Ele dizia aos seus alunos que o conhecimento era como um centavo, só vale se houver vários. E saber de um conhecimento e não usá-lo é como ganhar dinheiro e colocar em um bolso furado.

Mas uma noite estava marcada para mudar sua vida. Conheceu uma mulher ousada, por vezes profunda, intensa e com uma energia conectada a sua. Em 7 meses de namoro casou-se com ela. Todos se espantaram: “Caetano Barbares namorando, não acredito”. Pois é, o relacionamento foi consumado e os dois estavam alegres . Com o tempo veio Florisbela, nascendo antes do devido momento.

Com o passar do tempo, outra vez o medo da loucura faz parte de sua vida, a mulher o manda praticar meditação, ou procurar um psiquiatra, mas em vão, não queria ter o diagnóstico de louco, em sua concepção. Brigas começaram coexistir na relação – ele estava tomado pelo medo, ansiedade e pensamentos intrusivos. Na escola já não era mais o professor disposto a ajudar, ranzinza e aparentemente distraído.

Ao assistir um filme na televisão, de um psicopata, teme o mesmo caminho. Até um filme fazia ele temer o temível, não suportou tamanha dor e agonia. A esposa quando acorda se depara com a televisão quebrada e o marido aos prantos. A relação torna-se impossível. Antes do entardecer, ela o deixa, levando alguns bens e a filha. Agora o medo sucumbia a alma, um medo intenso, profundo, quente, amargo e ao mesmo tempo vazio.

No dias seguintes, resolve se internar em um clínica de doentes mentais, em pouco tempo perde os centavos que tanto cultiva, ou seja, seus conhecimentos. Pois não lia, somente se afogava em pensamentos obsessivos aos quais ele tanto os odiava. Depois de 21 anos internado naquele lugar, pede um livro para a amiga enfermeira, Helena Silva, que atende ao pedido do paciente exemplar.

E a enfermeira chega com um livro, ao qual ela julga importantíssimo para todos os desvairados com a vida lerem, Clarice Lispector: A Paixão segundo G.H. Ele lê em menos de 8 horas. Tempo não faltava-lhe.

Uma nova pessoa surge no hospital psiquiátrico; uma mulher jovem, totalmente fora da realidade, entretanto despertou um sentimento estranho em Caetano. Sensação de ternura, conforto e paz em seu coração. Mas nem tempo para conversar com a moça possuía. Ela estava com Esquizofrenia e desconfiava de todos. Chegando a pensar que estava em um mundo paralelo.

Em pouco tempo descobriu que a mulher fora internada pela mãe. A festa de confraternização no hospício estava às vésperas de acontecer, logo surgiria uma oportunidade para conversar com a moça – pensava ele. Todavia, dependeria de como o estado mental dela iria encontrar-se.

Durante o jantar, por volta das 19h30min, a misteriosa mulher esquizofrênica apareceu para a comemoração de 45 anos do Hospital psiquiátrico Jairo Marmares, notava-se que ela enxergava tudo como um grande mistério, talvez um jogo.

Caetano se apresenta:

_ Boa note, moça. Gostando da festa?

_ Isso não é festa, querem que pensemos que é. Na verdade, estamos no purgatório. Todos estão mortos! Responde ela, convencida de que a morte chegara para ela.

_ Acho que tem razão. Mas por vias de fato, vamos entrar no jogos deles.

_ Concordo, talvez poderemos ser recompensados.

Ao fim da noite, todos são levados aos quartos. Caetano decide entregar o livro de Clarice Lispector para a mulher lê-lo. Ela agradece, e viria a ler no dia seguinte.

Decorridos dois meses, a mulher com ajuda dos remédios volta a raciocinar. E pede para Caetano arrumar um telefone, para assim, ele ligar para a mãe. Ele a avisa, que seria impossível arrumar um telefone naquele lugar. Aproveitando-se da normalização da mente dela,os dois conversam sobre família:

_ Meu pai morreu, ele era muito bom – dizia mamãe. Comentou a moça

_ Eu perdi minha filha e minha esposa, por achar que estava louco. Hoje, vejo que tudo, na verdade, era um medo irracional de perder a razão. Aliás, coisa que poucos tem.

_ Minha mãe, me esperançava ao máximo para eu voltar a realidade. Ter esquizofrenia não é nada fácil , ela culpa meu pai, porque acha que isso veio dele.

_ Minha ex-mulher ao qual amo até hoje, encorajava-me para não enlouquecer, dizendo que era muita ansiedade. Por que não escutei-a? Minha doce Luziane.

_ Nossa história é muito parecida, pois o nome de minha mãe também é Luziane

_ O quê? Não acredito em coincidência! respondeu de imediato ao ouvir o relato da moça.

_ Pois sim, não é paranoia minha. Luziane Vicentina de Peres Vastos

_ E o seu? indaga totalmente espantado.

_ Florisbela Barbares de Peres Vastos.

_ Meu deus, filha. Eu sou seu pai! – Uma frase clichê digna de novela mexicana, dominara o ambiente.

_ Até agora a pouco, dizia ser racional. E agora vem dizendo essas loucuras! Retruca não acreditando no homem.

Depois de muitas conversas e revelações sobre o passado de ambos. Acaba por cair a ficha de Florisbela. Todos ficam comovidos com a história. Os dois juram sair do manicômio. Ao saber do ocorrido, a mãe vem buscar a filha, que agora encontrava-se devidamente sã. O que aborrece profundamente Caetano, no entanto, Luziane conversa com o ex-marido, com ternura e respeito. O diretor do hospital, Alexandre Juaceno, diz que ele receberá alta em 4 meses.

O clima no manicômio é desafiante, qualquer erro brusco, contaria mais dias para ele receber alta. Todavia, ao completar quatro meses, ele recebe alta.

Quando chega na casa, encontra a filha acamada, devido a uma gripe. Seu jeito meio tímido, o inibe de pedir para continuar a morar na casa até arrumar um emprego. Contudo ele possuía um bom dinheiro guardado no banco. Depois, consegue um emprego como administrador em uma grande multinacional.

Sua vida o fez acostumar-se com a desgraça proveniente de seus laços afetivos, em um breve período, conheceu a filha, parou de pensar que era louco, saiu do hospital psiquiátrico, a filha adoece, ele arruma um emprego, e agora recebera a notícia do falecimento da filha, em complicações de uma pneumonia.

Muito abalado, resolve fazer o papel de pai, consolando amigavelmente a mãe de sua filha. Uma tarde de inverno, um clima frio, percebe-se nos olhares tristezas e revoltas, pois, justo agora que estava melhor da esquizofrenia, veio a partir desse mundo. Alguns, pela ignorância, ou pelo fato de querer culpar alguém, culpam o pai.

Não suporta o fato de perder a filha precocemente: “Vou dar um basta”. E na manhã seguinte, veste seu melhor terno, coloca terra no bolso e pedregulhos, caminhando às margens do rio. Poucas foram as vezes que sentiu prazer em acordar, considerou-se boa parte de sua vida uma loucura irreparável , que a qualquer momento iria machucar a si, ou alguém que lhe transbordava de alegria. Então, por que justo agora por fim em sua melancolia? Não achando uma resposta plausível, volta para casa.

Tanta dor e tristeza, revolta e agonia, choros e gritos, deveriam se acamarem em suas profundezas, assim pensou ele. Ao ver seu rosto envelhecido, em um quarto escuro, tomara conta de que sua vida foi sabotada pela própria mente, e teria vingança, ele iria viver intensamente, voltar a lecionar, irritar os professores, explicando várias matérias aos quais ele nem dava aula, e assim que se sentisse louco, ler, ler e ler, sem parar, ler Freud, ser um junguiano, ser um lacaniano, sentir que é louco, faria parte, todos nós temos loucura, medo e ressentimento dentro de nossas profundezas. E por um instante, entristece pela ficha cair justo agora, mas alegra-se ao saber que o final de sua vida será melhor. Quem sabe casar novamente, dúvidas que o fazia raciocinar livremente. Agora, deve-se acostumar em viver, sem medo de ser mau ou insano, sentir-se livre como uma pássaro, e sorrir todos os dias, e quando a tristeza fazer morada, ele expulsá-la mais impiedosamente possível, assim como ela o maltratou a vida toda: “Bem vindo, mundo cruel, serás mais alegre hoje e amanhã”.

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